O limite da liberdade de expressão

Nossas palavras, comentários e nossas opiniões são reflexos de construções sociais. Noam Chomsky diz que “a linguagem determina não apenas nosso pensamento, mas também a própria realidade”. Assim podemos analisar como o homem é o maior fruto do seu tempo.  Todos os dias casos de intolerância ganham repercussão nas mídias, principalmente aqueles relacionados às opiniões ofensivas, discriminatórias e até mesmo às fake news (notícias falsas), que se tornaram comuns na nossa sociedade.  Muitas dessas inverdades repercutidas são classificadas erroneamente como casos de liberdade de expressão. Situações que podem parecer inofensivas muitas vezes são extremamente perigosas, pois tocam em temas sensíveis e criam gatilhos de pânico e medo coletivo, principalmente em grupos de minorias sociais que sofrem opressões estruturais.  Quem tem direito de se expressar? A liberdade de expressão é plena e assegurada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) – documento que garante direitos e liberdades fundamentais para todos. No Artigo 19°, o texto da Declaração afirma que: “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.” Porém, como conseguimos assegurar esse direito para grupos sociais que estão lutando diariamente pelo básico, a sua existência? Por conta disso, a liberdade de expressão acaba sendo monopolizada por grupos dominantes.  A garantia do livre direito de se expressar é algo que, na prática, se tornou inalcançável. Além disso, por diversas vezes é uma premissa para propagar os ideais e pensamentos de senso comum de classes privilegiadas que têm fácil acesso às tecnologias e meios de comunicação.   Onde está a liberdade no Brasil?  De 2015 para cá, o Brasil deixou de ter um dos melhores índices de liberdade de expressão do planeta. Hoje, ocupamos o 86° lugar entre 161 países analisados pelo estudo realizado pela ONG Artigo 19.  Sendo assim, somos a nação latino-americana que mais retrocedeu em termos de liberdade de expressão nos últimos dez anos.Nas Américas, o Brasil só está à frente de países como Venezuela, Nicarágua e Cuba, que não possuem transparência na divulgação dos dados. Uma das maneiras de medir se o direito à liberdade de expressão está sendo respeitado nos países é por meio do Relatório Global de Expressão, uma publicação anual realizada pela ONG Artigo 19. Em sua edição mais recente, publicada em 2020, o estudo confirmou uma realidade que já vinha aparecendo nos últimos anos: o Brasil deixou de ter um dos melhores índices da pesquisa para se tornar um país com a sua democracia em crise. Ultrapassando a linha  Por outro lado, o discurso de ódio está ganhando cada vez mais espaço, não somente nas “mídias livres”, mas até nas “mídias tradicionais”. Recentemente, grandes veículos de comunicação como o jornal Folha de São Paulo e a rádio Jovem Pan publicaram discursos de ódio explícitos em suas colunas de opinião. A internet é o maior disseminador de ruídos de comunicação quando falamos de meios independentes de comunicação. A possibilidade de noticiar de forma horizontal e participativa facilitou a democratização da informação. Em contrapartida, ela deu voz para grupos com ideias e discursos criminosos.  Um bom exemplo é o recente caso do apresentador Monark, que foi demitido do podcast “Flow” após defender a existência de um partido nazista durante uma gravação ao vivo do programa, o que é proibido pela  Lei do Racismo (nº 7.716/89) estabelece que é crime no Brasil  “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. Na gravação do episódio, onde também estavam presentes os deputados federais Kim Kataguiri (DEM-SP) e Tabata Amaral (PSB), Monark defendeu:  “A esquerda radical tem muito mais espaço do que a direita radical, na minha opinião. As duas tinham que ter espaço. Eu sou mais louco que todos vocês. Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei”. De acordo com o estudo realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), as informações falsas ganham espaço na internet de forma mais rápida, profunda e com mais abrangência que as verdadeiras.  Cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto as postagens falsas mais populares – aquelas que estão entre o 1% mais replicado – atingem até 100 mil pessoas. A falsa liberdade de expressão  As fake news também se tornaram uma grande vilã neste cenário e contribuíram para a queda do Brasil no ranking de liberdade de expressão, assim como os ataques agressivos que deslegitimam o trabalho dos jornalistas e os comentários discriminatórios contra minorias. Em uma nota de 0 a 100, a pontuação do Brasil registrada no último relatório divulgado em 2020 foi de 52. Este é o nosso pior resultado desde 2010, quando a medição começou a ser feita.  Aprendendo com os erros  Alemanha e outros países europeus, embora abracem a liberdade de expressão como direito fundamental, fixam limites de conteúdo ao seu exercício.  Eles vedam, por exemplo, a manifestação de ideias que defendam a inexistência do massacre de judeus durante a 2ª Guerra Mundial (negação do Holocausto), uma vez que tal tese colide com a dignidade de grupos raciais e religiosos e com a própria ideia de convivência pacífica entre os cidadãos.  Falar sobre liberdade é garantir que todos estejam seguros para fazer escolhas. Porém, sua “liberdade” não deve tirar jamais a segurança do outro. A sua independência nunca pode ser construída sobre a insegurança e o medo do outro, porque, assim, ninguém nunca será livre.

Decretos para destruir a Amazônia

Por Larissa Rodrigues Os garimpos são uma das ameaças mais graves para a Amazônia. Apesar disso, o presidente Jair Bolsonaro assinou dois decretos (10.965 e 10.966), publicados segunda-feira, trazendo facilidades para que eles se espalhem sem controle. Os decretos criaram o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala (Pró-Mape)e a Comape, uma comissão interministerial para coordená-lo e viabilizá-lo. Um dos objetivos do Pró-Mape é a “formalização da atividade”. Isso significa que os garimpos que operam ilegalmente terão um respaldo institucional para funcionar. Em vez de fiscalizar e pôr fim aos garimpos fora da lei, o governo está abrindo espaço para que se regularizem. É assim que Bolsonaro pretende acabar com a ilegalidade na Amazônia. Para piorar, a Agência Nacional de Mineração (ANM) adotará critérios simplificados para dar as outorgas de áreas. Todos os pedidos para garimpos registrados na ANM terão de ser concedidos sem a realização das análises necessárias para um controle efetivo da atividade. Veremos uma explosão de áreas dedicadas ao garimpo e, junto delas, um agravamento dos impactos ambientais, como desmatamento e contaminação por mercúrio, e dos terríveis episódios de violência contra os povos indígenas. Os decretos foram escritos usando conceitos que não condizem com a realidade. O garimpo é inserido no contexto de “desenvolvimento sustentável”, mas essa atividade não é sustentável, em contexto algum. Os impactos são vistos a olho nu, e ela não traz avanços socioeconômicos. Um estudo do Instituto Escolhas confirmou que a extração de ouro e diamantes na Amazônia não melhorou os indicadores de saúde, educação e PIB per capita. No jogo de palavras, também é reforçada a ideia do garimpo como uma “mineração artesanal e em pequena escala”. Isso não existe. A atividade é realizada de modo industrial, com maquinários caros e estruturas empresariais organizadas, que lucram bilhões de reais. Na última semana, um novo estudo do Instituto Escolhas revelou que o Brasil comercializou, em seis anos, 229 toneladas de ouro com graves indícios de ilegalidade. Isso é quase a metade da produção nacional, e a maior parte veio da Amazônia. Apenas cinco empresas do setor financeiro foram responsáveis por um terço dos indícios de ilegalidade, comprando ouro de garimpos na Amazônia. Elas também têm uma teia de relações empresariais e até familiares por toda a cadeia do metal, dos garimpos ao beneficiamento e à exportação, mostrando que são organizações bem estruturadas. Os decretos de Bolsonaro confirmam que o governo federal não está interessado em coibir os sérios problemas adotando controles mais rígidos. Com eles, o volume de ouro com indícios de ilegalidade crescerá, abalando ainda mais a credibilidade do país no exterior. Além da revogação imediata dos decretos, é preciso rever as leis do setor mineral para acabar com o garimpo. Somente assim será possível reverter o total descontrole que paira sobre essas operações. O setor precisa de controles mais rígidos e fiscalização, e é urgente a retirada das atividades de dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. No caso do ouro, o Banco Central precisa cumprir seu papel de fiscalizar as empresas que comercializam o metal. Pode exigir o monitoramento da origem do ouro. Isso já é objeto do Projeto de Lei 836/2021, do Senado, que precisa ser aprovado. Também é necessário acabar com a boa-fé na comercialização de ouro de garimpos. Hoje, a lei ainda exime os envolvidos da responsabilidade, presumindo boa-fé nas transações, mas, infelizmente, não podemos depender da boa intenção dos que lucram com a destruição da Amazônia. *Gerente de portfólio do Instituto Escolhas Texto publicado originalmente no O Globo em 17/02/2022.

Cadê a neve que estava aqui? Olimpíadas de Inverno e sustentabilidade

Para o dicionário Michaelis, a definição da palavra extinção é: “desaparecimento total de uma espécie viva”. Porém, as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global têm ampliado este conceito. Além de seres vivos, ecossistemas inteiros estão entrando em extinção e um exemplo atual disso é a neve.  Isso mesmo, a produção de neve do planeta em centros populacionais está sendo afetada. Podemos comprovar isso através dos Jogos Olímpicos de Inverno, que estão acontecendo em Pequim, na China.   Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, e pela organização Save Our Winters, apontou que, dos 20 locais que já sediaram os jogos desde 1924, apenas 10 teriam a “adequação climática” e os níveis naturais de neve necessários para sediar um evento em 2050. Contradição Esta é a principal crítica para a edição deste ano na China. Especificamente na região de Pequim, onde está acontecendo a maior parte das competições, que enfrenta há anos um severo racionamento de água.  A capital chinesa tem apenas 185 metros cúbicos de água per capita por ano para 21 milhões de habitantes. Segundo os parâmetros da ONU, esse volume representa menos de um quinto do seria o ideal para a saúde humana. Neve artificial  Para solucionar a ausência de neve natural, criaram-se opções artificiais. 100 geradores e 300 canhões com tecnologia europeia se encarregam da missão de transformar água em flocos de neve. No entanto, a tecnologia consome uma quantidade de água e energia absurda neste neste processo. Desde o início dos jogos já foram consumidos cerca de 222 milhões de litros – o suficiente para encher 85 piscinas olímpicas. Matérias de sites como Washington Post e Bloomberg dizem que provavelmente o número é ainda maior. Pequim não é a primeira cidade a depender de neve fabricada para garantir a realização das Olimpíadas de Inverno. O mesmo aconteceu nas duas edições anteriores, em Sochi (Rússia) e Pyeongchang (Coreia do Sul). E as perspectivas não são animadoras para o futuro.  “Infelizmente, os esportes de inverno vão depender cada vez mais de neve artificial, por causa da mudança climática”, afirmou Marie Sallois em entrevista recente, a diretora de sustentabilidade do Comitê Olímpico Internacional. Impactos acima do zero Apesar de todas as críticas e dúvidas acerca da sustentabilidade nos Jogos Olímpicos de Pequim, alguns pontos estão sendo apontados como positivos.  Principalmente em relação aos esforços na redução de combustíveis fósseis e emissão de CO2. O evento que se intitula neutro em carbono adotou diversas medidas para gerenciar as emissões de carbono. Um dos grandes destaques é o uso de 800 ônibus movidos a hidrogênio.  A pira olímpica dos Jogos foi apagada sem ter emitido nenhum grama de CO2, pois a queima é  de hidrogênio verde. A chama simbólica é abastecida por uma das maiores usinas de hidrogênio verde do mundo, instalada no resort de Zhangjiakou. O eletrolisador que produz o hidrogênio verde (H2V) em Zhangjiakou, uma joint-venture da Shell com uma companhia local, é um dos maiores do mundo.  Até mesmo o equipamento que fabricou a neve para o evento usou energia renovável desde o início da produção. O evento também se propôs a compensar os níveis de carbono por meio da arborização. As emissões inevitáveis e residuais serão compensadas com o plantio de árvores numa área equivalente a 800 quilômetros quadrados. Cerca de 47 mil hectares de florestas e 33 mil áreas verdes foram plantadas em Zhangjiakou e Pequim, respectivamente. Olimpíada Verde  A cannabis, componente que chamou a atenção nas Olimpíadas de Tóquio, destacou-se novamente ao voltar nas Olimpíadas de Inverno na China. Dessa vez, não só com o uso medicinal, mas como matéria-prima na construção de pistas de competição.  As fibras de cânhamo foram utilizadas para reforçar o concreto e reduzir rachaduras na construção das pistas, visto que o material foi capaz de oferecer um trilho mais uniforme e econômico, além de ser construído no menor tempo possível.   O uso medicinal da planta também esteve presente no evento de 2022, que foi a segunda competição olímpica a ser executada depois do canabidiol ter deixado de ser considerado doping pela Agência Mundial Antidopagem (WADA). Desde janeiro de 2018, o CBD passou a ser utilizado por atletas, principalmente pelo seu efeito analgésico, anti-inflamatório e ansiolítico, que pode beneficiar consideravelmente a recuperação física e emocional dos esportistas.  Não só pela neve   Mesmo com pouca transparência e acusações de greenwashing, eventos como as Olimpíadas apontam a necessidade de implementação de um novo modelo de desenvolvimento econômico, mais sustentável e circular.    Mesmo nos jogos olímpicos, onde os atletas se transformam em “deuses”, é preciso aceitar as fraquezas do ser humano e de que somos parte de um todo cuja obrigação é respeitar e cuidar do planeta.  Se até a neve, um fenômeno natural milenar, está desaparecendo, imagina o que pode acontecer com a humanidade. Não há tempo para esperar por uma solução enviada pelos deuses do Olimpo.

Centenário da Semana de Arte Moderna: o que ler e assistir

Por Lúcia Lima Galeria b_arco celebra os cem anos de 1922 com exposição coletiva e indicações de conteúdos importantes para se atualizar nos debates sobre modernismo no Brasil Durante o mês de fevereiro, a Galeria b_arco apresenta a exposição coletiva “+100 = 22/Quantos Patos na Lagoa?” que traz artistas convidados e representados por nossa galeria, com produções que refletem de maneiras distintas sobre o Modernismo, em referência ao centenário da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo em 1922. No texto de curadoria, assinada por Renato De Cara e Izabel Pinheiro, se expressa a possibilidade do conjunto de artistas contemporâneos apontarem novas leituras e horizontes para o modernismo: “A potência individual e coletiva de alguns de nossos contemporâneos vêm inserindo e fortalecendo novas visualidades baseadas em ancestralidades e mirando um futuro mais igualitário onde compreensões de mundos possam conviver lado-a-lado”.  Mas, para entender a necessidade da atualização do legado do movimento modernista de 1922 em relação aos paradigmas da História da Arte e também ao que vem sendo produzido contemporaneamente no cenário artístico, a Galeria b_arco também vem compartilhando alguns materiais importantes para se aprofundar no assunto! Reunimos todas estas indicações aqui no blog do CIVI-CO. São textos, palestras e livros que discutem em profundidade o centenário da Semana de Arte Moderna e ampliam as noções de modernismo para fora do eixo da vanguarda paulista. Em 2022, quando muito se fala sobre o legado deste marco cultural enquanto uma outra noção de moderno é construída por uma produção artística que bebe de novas fontes, precisamos aprofundar o debate para sonhar um futuro comum no Brasil. Confira! 6 livros para entender a Semana de Arte Moderna “Um século depois, o mito fundacional da Semana de 1922, por muitos anos incensado por setores da intelectualidade brasileira, é objeto de novas abordagens, que revisitam o movimento e a sua produção artística em suas contribuições e contradições.” A Galeria b_arco indica a lista publicada no Blog da Companhia das Letras, que traz seis livros que compõem as discussões sobre o centenário da Semana de Arte Moderna, repensando e atualizando as questões do Modernismo no Brasil! 1922: modernismos em debate – Mesas 1 e 2, Histórias da semana: O que é preciso rever Desde o ano passado, diversas instituições de arte e cultura estão buscando ressignificar e discutir o legado da Semana de Arte Moderna de 1922. O ciclo “1922: Modernismos em Debate”, promovido pelo Instituto Moreira Salles, Museu de Arte Contemporânea da USP e Pinacoteca do Estado de São Paulo revisitou o evento à luz das transformações teóricas e estéticas operadas em um século no país.  Indicamos as duas primeiras mesas deste ciclo de debates, que trouxe pesquisadores e críticos como Frederico Coelho, Aracy Amaral, Regina Teixeira de Barros, Ana Paula Cavalcanti Simioni e outros em interessantes discussões sobre o centenário, confira! Artigo “A Semana de 100 anos”, de Frederico Coelho Artigo publicado pelo professor e crítico Fred Coelho, que aborda o centenário da Semana de Arte Moderna a partir de problemáticas que persistem no Brasil contemporâneo. “Quase cem anos depois do evento – narrado pela sua fortuna crítica como, paradoxalmente, origem e destino da arte brasileira no século XX – sua força centrípeta paulistana e seu corte de classe colocam o arquivo modernista frente a novas perguntas e respostas sobre os impasses do Brasil contemporâneo. O artigo apresenta outros momentos em que o modernismo é questionado em sua excessiva “força fatal” e como, mesmo assim, se estabelece enquanto possibilidade transformadora de refletirmos sobre o país.” Artigo na Revista FAPESP aponta diferentes linhas de pesquisa que abordam o centenário da Semana de Arte Moderna  Este artigo da Revista FAPESP deste mês, escrito por Christina Queiroz, organiza e comunica algumas das principais pesquisas que estão sendo desenvolvidas sobre o legado da Semana de Arte Moderna de 1922.  “Cem anos depois, a Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, segue desafiando pesquisadores empenhados em compreender seu impacto na transformação das artes e da literatura no Brasil. Duas vertentes de análise predominam. Uma é constituída pela investigação de aspectos desconhecidos de autores e obras consagradas vinculadas ao evento, amplamente estudadas nesse século. A outra olha criticamente para a historiografia do movimento, procurando relativizar o legado da Semana. Complementares, as duas correntes disputam espaço na reconstrução da memória sobre o Modernismo.”  A série do podcast ARTEQUEACONTECE sobre o Centenário da Semana de 1922 Conduzido pela Julia Lima, que já foi curadora visitante na Galeria b_arco em 2021, o podcast é uma série de entrevistas imperdíveis sobre Modernismos no Brasil.  Nesta nova temporada, o ARTEQUEACONTECE explica a importância deste evento para a arte brasileira, além de discutir temas contemporâneos relacionados ao assunto, bem como a biografia dos artistas participantes. O podcast tem episódios lançados mensalmente e traz conversas e debates com especialistas no tema para você conhecer melhor esta semana, que foi uma das mais importantes para a história da arte no Brasil. *Coordenadora de Comunicação do Centro Cultural b_arco

NFTs: sustentabilidade ou distopia?

Nossas referências para o futuro não são animadoras, o cinema e a literatura ajudaram a construir uma visão distópica, onde a tecnologia e a automação tomarão conta de tudo. Um planeta caótico, destruído por catástrofes e dominado pelas relações de consumo causadas pelo desenvolvimento industrial e virtual desenfreado.  Mas e se conseguíssemos reverter essa situação a nosso favor? Será que ainda há tempo?   NFTS, token não-fungível, criptomoedas, metaverso… são termos futurísticos, mas que já fazem parte do cotidiano de todos e todas. Essas práticas apesar de serem novas e questionáveis, podem ajudar a construir uma ‘nova economia’ mais sustentável e acessível para a humanidade e podendo ser utilizada inclusive para o bem do planeta.  “ A ideia surge com o nascimento dessa nova economia para popularizar o que chamamos de ESG do jeito certo, porque hoje falamos muito de ESG de um jeito descolado do que o capitalismo de stakeholders se propõe, então a gente acha que o setor cripto pelo seu potencial de inovação e pela velocidade”, Iara Vicente, CEO da Nossa Terra Firme.  Uma iniciativa do Mercado Bitcoin, empresa de criptoativos, da Tropix, plataforma de criptoarte e da Nossa Terra Firme, empreendedor social que faz parte da comunidade CIVI-CO mostram que pensar o futuro a partir da tecnologia é possível.  Eles irão realizar uma ação com NFTs de impacto que serão leiloados e terão 95,5% dos ganhos revertidos ao Projeto de Gestão e Vigilância Territorial do Povo Indígena Paiter Suruí de Rondônia. Liderado pelo povo Paiter Suruí, a iniciativa tem o objetivo de proteger a comunidade localizada nos Estados de Rondônia e Mato Grosso. O objetivo do leilão é arrecadar recursos que serão usados na preservação de 13 mil hectares de floresta onde a Terra Indígena Sete de Setembro, território dos Paiter Suruí, está localizada.  “Precisamos partir do princípio que todas as atividades econômicas hoje elas têm um impacto ambiental e que para uma empresa ser sustentável, para que um setor ser sustentável ele precisa ter uma estratégia para redução, compensação desses impactos e também para promoção de práticas socioambientais positivos”, explicou Iara.   COMO AJUDAR?   As obras leiloadas através da Plataforma Tropix são de artistas plásticos brasileiros como: Paula Klien, Nelson Porto, dos indígenas Denilson Baniwa, Moara Tupinambá e Walelasoepilemãn Suruí, os lances começaram no dia 26 de janeiro e se estenderão até o próximo dia 15 de fevereiro. NFTs o que são?  Esta sigla foi escolhida,como a palavra do ano, pelo dicionário Collins em 2021, significa tokens não-fungíveis, ou apenas NFTs na abreviatura em inglês, “non fungible token”.  Eles são códigos numéricos com registro de transferência digital que garantem autenticidade aos seus donos. Na prática, eles funcionam como itens colecionáveis, que não podem ser reproduzidos.  De acordo com o estudo do Chainalysis, somente em 2021, estima-se que 153 bilhões de reais tenham movimentado o mercado, dentre os dois contratos de Ethereum (criptomoeda) associados às vendas de NFTs.  Impacto negativo  A Web 3.0 (agora chamada de Web3) é uma nova Internet, que integra economia e sociedade através de realidades virtuais. As negociações acontecem em sua maioria via blockchain. Ou seja, sem a necessidade de intermediação das instituições bancárias, gigantes da tecnologia e demais vilões da era moderna. Criptomoedas, NFTs, tokens digitais entre outras inovações fazem parte dessa era. Porém, para extrair moedas do universo virtual, é necessário de um computador montado especificamente para esse fim, com componentes que podem solucionar até 27 milhões de problemas matemáticos por segundo. A questão é que essas máquinas, residem no mundo real e funcionam à base de energia. Um estudo da Universidade de Cambridge estima que o uso de Bitcoins utiliza, anualmente, a mesma quantidade de energia fóssil que a Argentina inteira. Ou, em escala comparativa, uma única transação em Bitcoin se utiliza de até 290 quilos de CO², o mesmo de 72 mil e-mails enviados, 1.44 milhões de buscas no Google, 120 mil horas de vídeos do YouTube ou 8,5 quilômetros de um voo da aeronave Boeng 747-400. Novas tecnologias, velhas práticas  As fazendas de mineração, como são chamados os aglomerados de máquinas que extraem as moedas virtuais, estão migrando para países em que a energia é mais barata, como o Irã e a China, construindo uma atuação predatória sobre o consumo de energia destes países.  O Irã contabilizou um aumento significativo no seu uso de energia nos últimos três anos, além de atividades ilegais de instalações de fazendas de mineração. No país, o uso de energia elétrica é gratuito para mesquitas e prédios governamentais. Em 2019, viralizaram imagens de fazendas ilegais montadas dentro de mesquitas. A luz além do túnel  Enquanto o mercado tem se mantido alheio a esses movimentos, os ativistas procuram aceitar a nova realidade como um desafio e buscam soluções sustentáveis, como o analista Jason Bailey, o site Green NFTs angaria fundos para financiar a pesquisa de NFTs verdes, com menos impacto sobre o meio-ambiente.  Outra iniciativa é um site lançado pelo artista Memo Akten, que calcula os impactos naturais de cada NF, o portal criou um índice para sites que procuram por soluções de integração verde das artes dentro da economia das criptomoedas.  Artistas como Beeple e Sarah Lundy entre outros nomes que atuam no mercado da criptoarte se juntaram ao marketplace NiftyGateway para criar o Carbon Drop, leilão no qual cada artista vendeu uma NFTs carbono-negativa e cujo lucro foi doado para a Open Earth Foundation. Outra iniciativa brasileira que planeja reflorestar áreas prejudicadas pelo desmatamento é a criação do NFT Amazônia. A NFMarket Agency, criou o NForest, uma unidade de negócios, onde há obras de arte que retratam árvores, animais, lendas, entre outros itens comuns à vida Amazônica. Após a venda de cada árvore virtual de NFT automaticamente é realizado um plantio de uma árvore de verdade.  “É preciso quantificar a compensação desses impactos ambientais negativos, dando preferências em soluções da natureza, na recuperação de áreas degradadas, no plantio de florestas, investimento em sistemas agroflorestais, que são extremamente importantes para absorver o carbono que essas atividades econômicas emitem para a atmosfera” , complementou

Investimento social privado em saneamento básico: caminho para o desenvolvimento humano

Por Carola Matarazzo Destaque na Agenda 2030 da ONU, no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6, o acesso a água e saneamento básico para todos é um desafio épico para governos, organizações da sociedade civil e empresas. Em todo mundo, 4,2 bilhões de pessoas não têm esgoto tratado e 2,2 bilhões vivem sem água potável, problemas evidentemente relacionados a um extenso rol de doenças causadas por patógenos dos mais variados espectros. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 1,5 milhão de crianças morrem, por ano, de diarréia nos países pobres e em desenvolvimento. Realidade Brasileira No Brasil, a nossa realidade é bem parecida, se fazendo presente tanto em localidades isoladas do interior do Amazonas quanto em metrópoles, como São Paulo. Embora o abastecimento atinja 99,6% dos municípios do país, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, publicada em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em torno de 35 milhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável. Da mesma forma, o levantamento – com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) – revelou que a rede de esgoto não chega para 39,7% dos brasileiros, ou 84,4 milhões de pessoas. Todos estes números são chocantes, principalmente porque acabamos de entrar na terceira década do século 21, e desafios como estes há muito tempo já deveriam ter sido, se não resolvidos, ao menos mitigados em grande parte – e de forma consistente –, a partir de um plano com metas e investimentos claros. O avanço dessa agenda frequentemente esbarra em obstáculos, como a falta de vontade de se criar políticas públicas sérias, chancelando o bizarro e antiquado pensamento de que saneamento básico não é prioridade. Futuro Sancionado pela Presidência da República em julho de 2020, o novo Marco Legal do Saneamento Básico é um avanço expressivo. Seu principal objetivo é universalizar e qualificar a prestação dos serviços no setor, alcançando a universalização até 2033, garantindo que 99% dos brasileiros tenham acesso a água potável e 90% a tratamento e coleta de esgoto. Ainda que muitos pontos tenham ficado de fora, a legislação norteará as futuras políticas públicas. Boas Práticas Em função desta realidade, o investimento social privado em projetos de saneamento básico se faz urgente, especialmente para o desenvolvimento de sistemas de tratamento de esgoto em comunidades vulneráveis. Exemplo de como iniciativas deste tipo, mesmo que singulares, podem transformar a vida de milhares de pessoas é o projeto “Cuidando das Águas”, criado pela Sapiência Ambiental com o objetivo de construir sistemas de saneamento ecológicos em comunidades e propriedades rurais onde não há água potável nem coleta e tratamento de esgoto. Desde 2019, foram colocados em funcionamento 21 sistemas, distribuídos entre agricultores familiares, aldeias indígenas e associações comunitárias, impactando diretamente a vida de mais de 500 pessoas no extremo sul da cidade de São Paulo. O intuito é fomentar a universalização do saneamento rural no município e fortalecer a agricultura familiar orgânica, gerando melhor qualidade de vida e renda para essas pessoas e, ao mesmo tempo, levando alimentos mais saudáveis à mesa dos consumidores. Entre 2020 e 2021, o projeto foi apoiado pelo Movimento Bem Maior, por meio do Futuro Bem Maior, nosso programa de fortalecimento de iniciativas de impacto comunitário. Esgoto corretamente coletado e tratado são um caminho seguro rumo ao desenvolvimento humano, peça-chave para desafogar o nosso sistema de saúde público e recursos financeiros, que poderão ser aplicados para outras áreas prioritárias. Saneamento é Saúde Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimam que a universalização dos serviços de água e esgoto a ser promovida pelo Marco Regulatório deve reduzir em até R$ 1,45 bilhão os custos anuais com saúde. Além disso, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada R$ 1 investido em saneamento tem potencial de gerar economia de R$ 4 com a prevenção de doenças. Feitos os esforços necessários, teremos um cenário de queda do número de pessoas doentes e mortas por enfermidades totalmente evitáveis com simples processos de higiene. Isso significa mais crianças na escola, mais jovens e adultos trabalhando, menos gastos públicos e mais equilíbrio no acesso a direitos básicos para a população, propiciando qualidade de vida, desenvolvimento humano e crescimento socioeconômico sustentável. * Diretora Executiva do Movimento Bem Maior

Quanto custa o ódio?

Não foi só pelo dinheiro! A cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil, e não é por causa de 200 reais. Essa é uma dívida mais cara e antiga que a da morte do jovem congolês, Moïse Kabagambe, um imigrante refugiado da guerra em seu país que se deparou com outra batalha silenciosa e secular no Brasil. Moïse, diferente de muitos dos nossos ancestrais escravizados, atravessou os mares em busca de oportunidades, uma vida melhor, mas acabou sendo vítima do mesmo crime que mata a população negra no Brasil desde 1539: o racismo.  De acordo com o Atlas da Violência, em 2019, os negros representaram 77% das vítimas de homicídios no Brasil, com uma taxa de 29,2 mortes por 100 mil habitantes. Entre os não negros, a taxa foi de 11,2 para cada 100 mil, esses números significam que o risco de um negro ser assassinado é maior que o dobro de uma pessoa não negra. Entre os anos de 2009 e 2019, cerca de 623 mil pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil. Destas, 333 mil (53% do total) eram adolescentes e jovens. Na análise dos dados da última década, os autores do levantamento observaram que a redução dos homicídios ocorrida no país esteve muito mais concentrada entre a população não negra do que entre a negra.  Na última década, o número de negros vítimas de homicídio cresceu 1,6%, passando de 33.929 vítimas em 2009 para 34.466 em 2019. Já as vítimas não negras passaram de 15.249 em 2009 para 10.217 em 2019, redução de 33%. Uma luta seletiva  O assassinato brutal de Moïse Kabagambe, que no dia 24/01 saiu para cobrar o pagamento de diárias atrasadas no quiosque Tropicália, onde trabalhava na Barra da Tijuca, expôs algo que vai além do racismo existente no Brasil. Ele mostra como a “aversão a estrangeiros” em nosso país é seletiva, tem alvo e cor. O tratamento oferecido aos imigrantes africanos, venezuelanos, haitianos ou caribenhos tem uma proporção muito diferente do oferecido aos imigrantes europeus e norte-americanos não negros, por exemplo. E isto é visível até nos veículos de comunicação e na agilidade para solução dos casos.  A ONG “Estou Refugiado” (@estourefugiado), membro da Comunidade CIVI-CO, tem como foco a inserção de refugiados no mercado de trabalho e reúne voluntários, profissionais de Recursos Humanos, psicólogos e comunicadores. Frente ao ocorrido com Moïse, a ONG se manifestou nas suas redes sociais: “Morreu vítima da ignorância, do preconceito, do ódio que atualmente parece brotar em cada esquina e que a qualquer momento pode atingir a você, a mim, a qualquer um de nós. Principalmente as minorias. Moïse tinha 24 anos. Estava há 13 no Brasil. E sentia-se mais brasileiro do que muitos que nasceram aqui e há mais tempo do que ele.” @estourefugiado no Instagram. Esta infeliz situação mostra também as péssimas condições e a fragilidade de nossas leis e relações trabalhistas. A falta de fiscalização, burocracia, morosidade nos julgamentos e principalmente a “falta de culpados”, colaboram para um cenário extremamente desigual.  Reduzir as desigualdades é uma construção que passa por processos de adoções de políticas públicas, fiscais, tributárias, salariais e de proteção social. Esta é uma barreira que o país não consegue avançar, principalmente por conta de uma cultura escravocrata que é reproduzida por séculos.  ODS A 6ª edição do relatório “Refúgios em Números”, produzido pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), divulgou que, até o final de 2020, havia 57 mil pessoas refugiadas reconhecidas no Brasil.  Dentre esses, 84% dos refugiados entrevistados já concluíram ao menos o Ensino Médio, sendo que 34% deles concluíram o Ensino Superior, número bem acima da população brasileira que é de 15,7%, informou a análise sociodemográfica e laboral de refugiados residentes no Brasil, realizado pelas Cátedras Sérgio Vieira de Melo e o Alto Comissariado das Nações Unidas (UNHCR).  O ODS 10 propõe a redução das desigualdades dentro dos países. Entre as metas do objetivo tem uma específica sobre facilitar a migração e a mobilidade ordenada, segura, regular e responsável das pessoas, inclusive por meio da implementação de políticas de migração planejadas e bem geridas. Porém, até o Ministério da Justiça fez objeções à redação da meta original, apontando que os termos usados não foram inclusivos e que privilegiam as políticas migratórias voltadas para trabalhadores qualificados e que, portanto, iria na direção contrária das reduções das desigualdades. A exemplo de imigrantes haitianos e venezuelanos, que não se adequam a proposta de imigração planejada, em todos os casos a prioridade deve ser o acolhimento. Foram levantados os avanços nesse sentido na nova legislação brasileira sobre imigração. Acrescenta-se que a redação original não trata dos problemas concretos que a política migratória enfrenta no Brasil, com foco na integração dos migrantes e refugiados.  #SomosTodosMoise  A princípio, o assassinato de Moïse não recebeu uma cobertura midiática, mas a denúncia ganhou a comoção pública na internet. No Twitter, a indignação rendeu mais de 50 mil tweets com a hashtag “#JustiçaparaMoise”. A causa ganhou o apoio de artistas e autoridades brasileiras, ficando entre os assuntos mais comentados na rede social.  Todos estão unidos pedindo justiça para que outros Moïse Kabagambe, vítimas da desigualdade social, não percam as vidas enquanto lutam por direitos básicos. E que estrangeiros e brasileiros possam ter oportunidades e liberdade para alcançar seus sonhos em uma sociedade mais justa e igualitária.

Saúde Mental: como fica o ‘M’ no ESG

Dê um tempo… Respire fundo… e só agora siga em frente. Às vezes, até em um texto precisamos fazer pausas. Não seria diferente com a nossa rotina. Infelizmente nossos corpos não conseguem acompanhar a velocidade e as exigências do mundo. A sua saúde mental segue o ritmo que você leva a vida?   Termos como esgotamento, burnout, ansiedade e depressão já não são novidades, porém os efeitos desses são cada vez mais sintomáticos em uma sociedade competitiva e que te cobra por produtividade e entregas a todo instante.  Estes excessos recorrentes expõem a fragilidade até daqueles que eram julgados como fortes e imbatíveis: os atletas. Em outros tempos, considerados super-heróis, esses homens e essas mulheres têm se mostrado cada vez “mais humanos”.   “Cheguei no meu limite. Preciso estar 100% mentalmente para voltar a competir”, desabafou o surfista Gabriel Medina (@gabrielmedina) ao anunciar que dará um tempo da correria dos campeonatos.  O jovem pretende se recuperar da “montanha-russa de emoções” que enfrentou no último ano.  O tricampeão mundial de surf se juntou a outros tantos atletas que decidiram respeitar seu corpo e dar uma pausa para cuidar da saúde mental. O esgotamento emocional que assombra a classe esportiva não é uma novidade, mas o que mudou é que o mundo está mais atento sobre isso.  No ano passado, esse debate ganhou visibilidade quando a ginasta norte-americana Simone Billes, favorita na Olimpíada de Tóquio, abandonou as finais para focar em seu bem-estar. “Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos”, disse ela. Equipes e atletas têm trabalhado com psicólogos esportivos para garantir um suporte emocional diário, dentro de uma visão multidisciplinar no esporte, embora a profissão ainda busque maior espaço na área.  Janeiro Branco  O esgotamento emocional não é uma situação exclusiva dos atletas de alta performance. Ele aflige toda a nossa sociedade. A campanha “Janeiro Branco” tem como objetivo dar destaque para as questões e necessidades relacionadas à Saúde Mental e Emocional das pessoas e instituições humanas.   O meio corporativo também é um ambiente de extrema cobrança e competitividade. Isso tem afetado a vida de trabalhadores pelo mundo afora. A síndrome de esgotamento mental está presente dentro das empresas, afastando diversos profissionais das suas funções.   As instituições que não buscarem soluções para essa nova realidade tendem a perder credibilidade no mercado – e dinheiro também. Um relatório da Lancet Commission previu que até 2030 o número de dias de trabalho perdidos em virtude de problemas com saúde mental vai custar 16 trilhões de dólares à economia. O que o ESG tem a ver com isso?  A necessidade de ajustes nos parâmetros ESG para atender aos anseios de clientes e investidores é progressiva e está explícita nas métricas e resultados. Agora, estas medidas também se tornaram um movimento de revisão das políticas internas das empresas para endereçar e fortalecer o pilar “S” da sigla, o Social. Isso significa rever práticas voltadas aos funcionários, políticas de inclusão e de saúde. O estudo LifeWorks Mental Health Index mostra que um dos fatores de preocupação relativo à vertente social que cresce nesta fase pós-pandêmica é com a saúde mental dos funcionários. Não que isso seja novidade (afinal, o equilíbrio mental foi um dos temas extensamente debatidos nos últimos anos), mas agora os olhares se estenderam para a qualidade do ambiente de trabalho. Visivelmente existe um “M” de “Mental” crescendo dentro do “S” da sigla, para sinalizar os esforços sobre saúde mental. Empresas de vários segmentos estão revendo políticas de horas trabalhadas, pressão sobre resultados e interação com a liderança. O papel da comunidade   Passada a temporada do home office e do isolamento, que vivemos no decorrer de 2020 e 2021 por conta da pandemia de coronavírus, temos assistido ao crescente retorno dos espaços de trabalho compartilhados. Estes espaços tornaram-se o lugar de produção de muitos profissionais que precisam de um ambiente para trabalhar. Além disso, o coworking reduz os custos das empresas e fomenta o relacionamento entre pessoas com os mesmos objetivos e interesses. Trabalhar em comunidade pode melhorar sua saúde mental Continue a leitura e saiba como estar em um coworking pode te ajudar nos cuidados com a sua mente: Carga de trabalho Quando você trabalha em um coworking fica muito mais fácil definir o seu horário de trabalho, já que assim você não mistura o seu ambiente de trabalho com o seu ambiente de descanso. Produtividade Quando você trabalha em um ambiente planejado e pensado para o trabalho, livre de distrações e com toda a estrutura necessária para atender as mais diversas demandas dos profissionais, é inevitável aumentar a produtividade. Sem distrações Essa é fácil: questões da casa ficam em casa. Em um coworking ninguém irá bater na porta do seu quarto ou escritório para resolver alguma questão doméstica. Estrutura física adequada Em um espaço de trabalho especializado, você conta com uma estrutura completa: móveis ergonômicos, escrivaninhas, cadeiras confortáveis e todas as facilidades que um profissional precisa ter ao seu dispor. Convívio e interação Mesmo que o contato físico não seja recomendado nesse momento, o fato de poder conversar com pessoas diferentes do seu convívio, mesmo que com distanciamento físico, pode ser um alívio na rotina. Sem falar na troca motivadora de ideias! O CIVI-CO é uma comunidade figital. O que isso significa? Que estamos conectados além do espaço físico do nosso coworking em Pinheiros, aqui em São Paulo. Atuamos também de forma digital: virtualmente presentes. Ficou com vontade de saber mais sobre o nossa Comunidade? Então conheça a Trilha Membership e os benefícios do Selo CIVI-CO para as empresas e organizações de impacto social.

Sede não é escassez, é má distribuição

Andando pela rua, em um dia quente de verão, você começa a sentir sede. O que você faz? Provavelmente vai ao estabelecimento comercial mais próximo e compra uma garrafa de água. Sim, pode parecer simples, mas já parou para pensar o que você faria se não tivesse dinheiro ou se não houvesse onde comprá-la?    Quando falamos de falta de água logo pensamos em cenários desérticos, regiões áridas ou imagens de pessoas passando sede e fome no sertão brasileiro. Porém, o inimigo mora ao lado. Muitos não sabem que em São Paulo, a cidade mais rica da América Latina, existem diversas pessoas sedentas neste exato momento.  Pensando nessas situações, a Florescer Brasil desenvolveu um mecanismo para democratizar o acesso à água potável nos centros urbanos e para reduzir o impacto negativo causado pela grande quantidade de garrafas plásticas descartadas anualmente.  O CIVI-CO é um incentivador dessa ferramenta de impacto social e foi um dos pontos escolhidos pela Florescer para receber o totem de água gratuita. Ele ficará localizado aqui na pracinha em frente ao nosso prédio, na Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 445.    Os totens feitos de material reciclável estarão disponíveis 24h por dia. Para utilizar, basta posicionar a garrafa (ou squeeze) e acionar o botão lateral. Filtros de desinfecção ajudam a evitar a contaminação. Florescendo impacto Em meio à crise do coronavírus, a Florescer Brasil instalou lavatórios portáteis públicos no Jardim Colombo, na zona oeste, e no Capão Redondo, na zona sul.  O objetivo era facilitar a higienização das mãos para combater a proliferação do vírus em comunidades com dificuldade de acesso à água. A iniciativa foi destaque e conquistou a vitória do Prêmio Empreendedor Social em 2020, na categoria “Mitigação da Covid-19”. E não parou por aí. Em julho de 2021, a empresa social instalou um reservatório de água, criou sistema de bombeamento com captação solar e distribuiu caixas d’água para famílias que chegavam a gastar metade da renda com água engarrafada. Rio Innovation Week 2022 Essas ações renderam ao CEO da Florescer Brasil (@florescer_brasil ), Felipe Gregório, o convite para participar como painelista no Rio Innovation Week e debater sobre novas tecnologias sociais de acesso à água e esgotamento sanitário em locais de difícil acesso, de estresse hídrico e de alta vulnerabilidade social. O Rio Innovation Week ( @rioinnovationweek ) foi um evento que aconteceu entre os dias 13 e 16 de janeiro, na cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de implantar um hub de projetos que pensam no futuro como presente – desenvolvem, capacitam, surpreendem e empreendem. Sintomas   A ação do Florescer expõe um problema maior existente nos centro urbanos: falta de acesso à água para moradores em situação de rua. A pesquisa “Cartografias do acesso à Água”, organizada pelo Centro de Convivência É de Lei, faz um levantamento dos banheiros, lavanderias e pias públicas em atividade no centro da cidade de São Paulo.  Contudo, tanto o relatório quanto os banheiros mapeados apontam para a insuficiência dos banheiros disponíveis. Além dos cinco espaços implementados pela prefeitura, existem apenas mais quinze banheiros espalhados pela cidade.  Se considerarmos a soma desses números (20 banheiros), podemos concluir que cada banheiro público em São Paulo é utilizado por 513 pessoas. E estamos contabilizando apenas a população em situação de rua na região central. Se o cálculo for para toda a população que vive nesses distritos, seriam mais de 8 mil pessoas para cada banheiro. Um número inaceitável, mas que fica pior, pois não levamos em conta as barreiras físicas e simbólicas para acessar a maioria desses banheiros. Uma parte significativa deles está em locais onde existe algum nível de vigilância e controle que impede o livre acesso de todos e todas. De acordo com a pesquisa, pias e torneiras de uso público foram construídas logo no início da pandemia, que já demandava historicamente a instalação de bebedouros e pias nas vias públicas da cidade. Segundo a prefeitura de São Paulo, seriam instaladas 100 pias pela cidade. Porém, foram identificadas apenas seis.  A população em situação de rua procura água em estabelecimentos comerciais e postos de gasolina, segundo 46% dos entrevistados pelo Censo da população em situação de rua em 2019. Infelizmente, 15% deles relataram sofrer violência por parte dos comerciantes e 19% disseram que são impedidos de acessar bares, lanchonetes ou restaurantes.  A partir destes dados fica evidente que o acesso à água para consumo ou para higiene da população que está em situação de rua deve ser objeto de política pública, auxiliados pelo terceiro setor. Outra realidade São Paulo, a maior e mais rica cidade da América Latina, não tem nenhum bebedouro instalado nas ruas. Uma publicação do jornal The New York Times (2018) apontou que Nova York tem mais de 3 mil fontes e bebedouros instalados em espaços públicos.  A cidade italiana de Roma possui cerca de 2 mil bebedouros em locais de grande circulação. Paris, na França, tem aproximadamente 1.200 bebedouros públicos.  Londres, na Inglaterra, iniciou uma política para instalar equipamentos para combater o uso de garrafas plásticas e saciar a sede não apenas de pessoas, mas também de animais de estimação em locais públicos. Até mesmo o Chile, país sulamericano, tem um projeto de instalação de bebedouros públicos. [:en]Andando pela rua, em um dia quente de verão, você começa a sentir sede. O que você faz? Provavelmente vai ao estabelecimento comercial mais próximo e compra uma garrafa de água. Sim, pode parecer simples, mas já parou para pensar o que você faria se não tivesse dinheiro ou se não houvesse onde comprá-la? Quando falamos de falta de água logo pensamos em cenários desérticos, regiões áridas ou imagens de pessoas passando sede e fome no sertão brasileiro. Porém, o inimigo mora ao lado. Muitos não sabem que em São Paulo, a cidade mais rica da América Latina, existem diversas pessoas sedentas neste exato momento. Pensando nessas situações, a Florescer Brasil desenvolveu um mecanismo para democratizar o acesso à água potável nos centros urbanos e para reduzir o impacto negativo causado pela grande quantidade de garrafas

Foodtechs, PANCs, superalimentos: o sabor da sustentabilidade[:en]Foodtechs, PANCs, superalimentos: o sabor da sustentabilidade

Sabia que o Brasil é um dos países que mais desperdiça alimentos no mundo? Com o propósito de reverter essa situação, diversas foodtechs estão propondo novos modelos de consumo consciente, pensados em sustentabilidade e impacto socioambiental.  Dentre as soluções apresentadas, a utilização de superalimentos e os chamados “alimentos do futuro” são as tendências do mercado.  Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Brasil, dos 140 milhões de toneladas de alimentos produzidos por ano, 26 milhões vão para o lixo. Proporcionalmente a essa situação, 19 milhões de brasileiros estão passando fome.   No mundo inteiro, 1,3 bilhão de alimentos são desperdiçados. Esses números representam 30% da produção de todos os países somados anualmente.  Os desafios da Sustentabilidade Alimentar A Organização das Nações Unidas (ONU) decretou algumas metas dentro dos seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável , que aponta os principais desafios alimentares do planeta. Dentre eles: Até 2030, acabar com todas as formas de má-nutrição, incluindo atingir, até 2025, as metas acordadas internacionalmente sobre nanismo e caquexia em crianças menores de cinco anos de idade, e atender às necessidades nutricionais dos adolescentes, mulheres grávidas e lactantes e pessoas idosas. A indústria agroalimentar mundial consome 30% da energia que produzimos e emite 22% das emissões totais de gases de efeito estufa (GEE). Anualmente, desperdiçamos um terço dos alimentos que produzimos, às vezes inclusive antes de chegarem à mesa. Além disso, 26% da humanidade tem obesidade ou excesso de peso. A nossa dieta repercute no meio ambiente através do consumo de energia relacionada com os alimentos e a geração de resíduos. O empobrecimento do solo, o desperdício de água, a pesca em grande escala e a degradação dos ecossistemas marinhos estão diminuindo a nossa capacidade para produzir alimentos. Enquanto isso, deixamos de aproveitar alimentos que poderiam amenizar a fome e fornecer nutrientes para milhares de pessoas. De acordo com “Frutas comestíveis na Amazônia”, livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante lançado em 2010,  70 milhões de toneladas de buriti, o fruto mais rico em carotenoides do mundo, amadurecem no Brasil, mas só uma ínfima parcela é aproveitada por humanos.  Inúmeras espécies alimentícias nativas do Brasil têm perdido espaço em lares, restaurantes e mercados, ao mesmo tempo em que a fome e o preço da comida crescem no país. Muitas dessas espécies são frutos e hortaliças que nascem espontaneamente em campos agrícolas e canteiros, mas são vistas como ervas “daninhas” e acabam cedendo espaço para o agronegócio. Em comum, algumas dessas espécies são consideradas superalimentos por terem grande quantidade de nutrientes – como minerais, vitaminas e antioxidantes. Resistentes e de fácil cultivo e manejo, essas “espontâneas comestíveis” toleram grandes variações climáticas e dispensam cuidados especiais. Um exemplo é o caruru, que tem folhas com propriedades semelhantes às do espinafre e sementes com 17% de proteínas. Outra planta é a beldroega, rica em ômega-3 e nas vitamina B e C, além de ter propriedades antioxidantes.  O que são as PANCs? Plantas alimentícias não convencionais (PANCs) são milhares de espécies vegetais que já conhecemos, mas que não fazem parte da nossa alimentação diária. Elas possuem uma ou mais partes comestíveis, sejam elas nativas ou exóticas. Cerca de 300 espécies já foram catalogadas como planta alimentícia. Pelo menos 50 dessas plantas já possuem informações técnicas de cultivo e fazem parte do trabalho de hortas locais de multiplicação e promoção de cultivo. Como por exemplo: amaranto, capuchinha, chuchu-de-vento, fisális, mangarito, vinagreira, taioba, caruru, jambu, ora-pro-nóbis e peixinho.  A fim de resgatar esses alimentos e diversificar a alimentação, órgãos públicos e privados, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), estão realizando levantamentos de espécies que possam ser incorporadas na dieta alimentar.  O que são Foodtechs?  As foodtechs são startups que desenvolvem soluções para o setor alimentício. Este ramo ainda é incipiente no Brasil em comparação com outros segmentos como saúde, varejo, RH, marketing e agropecuária. Mesmo assim, já começou a impactar com novas formas de olhar para a cadeia de produção e distribuição dos alimentos. Este mercado recebeu, a nível mundial, cerca de 1,3 bilhão de dólares em investimentos de capital de risco até maio de 2018, de acordo com informações do PitchBook, e deve chegar a 980 bilhões de reais até 2022, segundo a instituição britânica The Food Tech Matters. Na revolução alimentar provocada pelas foodtechs se destacam especialmente: a agricultura biotecnológica, as plataformas de compra e venda de produtos agrários, a bioenergia e os biomateriais, a robótica agrícola, os alimentos ecológicos e os novos sistemas de cultivo, entre outras categorias.  Nossa Comunidade Em nosso ecossistema de negócios de impacto temos um Hub de Alimentação Sustentável. A vertical é liderada por Pedro Campos, fundador da The Question Mark, startup que produz alimentos plant based. O Hub fomenta encontros periódicos para discutir soluções no ramo alimentício que reduzam o impacto ambiental e social criados pela grande ingestão de produtos industrializados e principalmente pelo agronegócio.  Recentemente, a aceleradora de impacto Quintessa, junto com o Instituto BRF, selecionou oito startups de impacto socioambiental para fazerem parte da primeira edição do Ecco Comunidades. O programa tem como objetivo apoiar soluções que atuam na redução de perdas e desperdícios de alimentos. Além disso, ele promove o desenvolvimento territorial a partir da aceleração e implementação de suas soluções em cinco municípios onde a empresa atua: Dourados (MS), Lucas do Rio Verde (MT), Nova Mutum (MT), Rio Verde (GO) e Uberlândia (MG).  Em novembro de 2021, a Piraporiando e a Free Soul Food lançaram aqui no CIVI-CO o projeto “Ayé”. Com foco em escolas, o Ayé oferece comida saudável e inclusiva com conteúdos e atividades de arte/educação que valorizam a diversidade, promovem a educação antirracista, a valorização da diversidade, a promoção da justiça social e da equidade e o cumprimento dos ODS. A ação mostrou que a mudança de hábitos deve acontecer pela educação. A implantação de uma alimentação sustentável valorizando as riquezas da diversidade cultural e ambiental pode ser também