Quem quer ser um educador antirracista?

Você trabalha a cultura afro-brasileira na escola? A Lei nº 10.639/03, determina o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira em escolas públicas e privadas do país. Desde 2004 este ensino deve abranger as dimensões culturais, sociais, históricas dentre outras dimensões da população negra e sua história. É fundamental que a escola seja antirracista, tanto no que se refere ao currículo como na preparação e formação do corpo docente, que precisa estar apto para este trabalho. Preparamos 4 dicas para trabalhar a cultura afro- brasileira na escola (e também em casa). Mas lembre-se: Somente realizar algumas atividades e brincadeiras não basta para abranger todas as complexidades e atenção necessária a este tema. Estas dicas são para apoiar a escola e a família mas, precisamos saber que este é um trabalho que demanda constância, coerência, intencionalidade, estudo e conhecimento. 1 – Brincadeira – Desenhando um baobá. O baobá é uma árvore africana com uma forma bem peculiar e aparece em várias lendas, contos e tradições africanas. Enquanto aprendem a desenhar o formato da árvore, as crianças podem ouvir histórias sobre ela. 2- Música – Que tal aprender e dançar ao som da música africana “Kokoleoko” tradicional de Gana. Gostosa de cantar, ela é uma ótima dica para conhecer um pouco mais sobre a cultura de Gana. Inclusive, para quem ama chocolate, sabiam que Gana é o segundo maior produtor mundial de cacau, atrás somente da vizinha Costa do Marfim? 3- Livros – Amoras – Do rapper @emicida, o livro aborda a religião e a cultura afro, além de assuntos como preconceito, representatividade e autoestima. Nuang – caminhos da liberdade – da escritora e educadora Janine Rodrigues, fala sobre liberdade, coragem, a força do povo Banto e a história do povo negro antes e depois da escravização. 4- Formação – Trilhas da Diversidade – Formação prática e teórica, pautada em teconologias sociais e com foco em letramento racial e educação antirracista, educação antibullying, equidade de gênero, educação antipreconceito e educação baseada na cultura do afeto. São pilares da nossa formação: Os pilares da UNESCO Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) A Lei 13.185/2016 (antibullying) A Lei 10.639/03 (antirracista e ) A LDB – Leis de diretrizes básicas da educação A Declaração de Salamanca Aspectos Jurídicos e fundamentação legal além da BNCC (no caso de escolas). A formação está voltada para escolas e empresas. Para saber mais conheça a Piraporiando Acesse também o Infográfico da Piraporiando: “Uma educação baseada no afeto”

A favela tá on: inclusão digital em comunidades periféricas

Imaginem, em uma realidade futurística, adolescentes da periferia, utilizando jogos virtuais para conseguir uma ascensão social. Esse poderia ser mais um enredo ficcional, como o do livro Ready Player One (“Jogador Número 1”), do escritor norte-americano, Ernest Cline. Mas, neste caso, a cena já é uma realidade aqui no Brasil.  A Taça das Favelas de Free Fire, jogo virtual de ação em plataformas online, mobiliza adolescentes de 1.296 favelas brasileiras.  O evento é organizado pela Central Única das Favelas, responsável por selecionar os melhores jogadores de cada comunidade.  Para a edição 2021 a organização espera mais de 200 mil interessados, onde 1,3 mil selecionados  vão disputar o prêmio de R$ 100 mil.   As inscrições dos representantes das favelas selecionadas começaram no dia 29 de setembro e se encerram no dia 13 de outubro. Inicialmente a competição seguirá um formato estadual, em que as favelas vencedoras avançam para a etapa nacional.  A parceria é uma criação conjunta entre CUFA, LOUD, Itaú e Druid. As inscrições foram abertas no site oficial do evento e as favelas interessadas se inscreveram até o dia 28 de setembro. Passado este prazo, a CUFA está selecionando os jogadores habilitados para competir. No papel de patrocinador do torneio, o Itaú irá distribuir 7,8 mil chips com até 2 GB de Internet por mês para os selecionados para a etapa estadual. A empresa também vai oferecer uma “jornada” sobre carreira, gestão financeira e investimentos junto à Barkus Educacional. Grande sonho   Segundo levantamento do Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva Pesquisas e a Cufa,  96% dos jovens moradores de comunidades em todo o país gostariam de ser gamers profissionais. Para 29%, desses jovens ser gamer profissional é o maior sonho da vida deles, uma prioridade maior até do que adquirir a casa própria ou o desejo de ser feliz. Dentre os entrevistados, os homens jovens e com renda de até um salário mínimo foram os que mais manifestaram esta expectativa de futuro. Esses rapazes enxergam a carreira de gamer profissional como uma oportunidade de rápida ascensão social, mais até que o futebol, a música ou ganhar na Mega Sena. A possibilidade de obter uma renda acima da média fazendo algo que gostam alimenta a chance de realizar sonhos e melhorar a vida da família. Segundo a pesquisa do DataFavela, o celular é o principal dispositivo de acesso para 98% dos entrevistados, mas, ainda assim, 79% alegaram já já terem deixado de jogar por conta de problemas na conexão à Internet ou pela falta de dados. Inclusão X Exclusão A pandemia trouxe um grande avanço para as atividades virtuais, a utilização de serviços, redes sociais e o entretenimento online atingiu o ápice nesse período. Por conta do isolamento social, as pessoas tiveram que se adequar a essa nova forma de “vida digital”.  De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2020, lançada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, a pandemia da Covid-19 intensificou o uso da internet no Brasil e chegou a marca de 152 milhões de usuários.  Esse número corresponde a cerca de 81% de toda a população do país com mais de 10 anos de idade. Porém, sabemos que nas comunidades a realidade é outra: o acesso não é tão fácil, falta qualidade e tecnologia, além de políticas e incentivos para democratizar a internet para todas e todos. Em 2002, o grupo de rap Racionais MC’s cantava na canção “Nego Drama”: “eu não sei fazer Internet, videocassete, os carro loco atrasado, eu tô um pouco sim…”. Hoje, quase duas décadas depois, a realidade é um pouco diferente. O acesso à tecnologia portátil e de baixo custo possibilitou novas oportunidades para muitas pessoas, inclusive a de serem influenciadores, músicos, gamers e produtores de conteúdo. Este advento impulsionou e deu voz para diversos grupos que são socialmente excluídos.  Inclusive, esse foi um dos fatores que fizeram do Free Fire um jogo tão popular entre a juventude brasileira. É um aplicativo acessível, pois funciona em celulares de baixa tecnologia e não precisa de uma conexão veloz de internet.  A expansão digital nas comunidades ocorre principalmente pelos celulares, com usuários acessando recursos limitados. Um relatório da consultoria McKinsey & Company analisou um estudo da Google que apontou o seguinte padrão de acesso do brasileiro: Aplicativos de mensagens = 83% Redes sociais = 56% Leitura de notícias e mecanismos de busca = 54%   Ainda que o acesso à tecnologia seja mais democrático, ele não é totalmente inclusivo. Existe uma parcela da população que está enfrentando problemas maiores, como a fome e falta de moradia, e não podem priorizar o conhecimento neste momento. Segundo levantamento realizado pelo IBGE em 2019 e divulgado neste ano, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, apenas 43% dos estudantes da rede pública têm acesso à internet no Brasil.  É necessário ter programas que acelerem a inclusão digital. Hoje em dia, até para a inserção no mercado de trabalho, o conhecimento e o acesso à tecnologia são essenciais. Aplicativos de recrutamento, como o Linkedin, possuem cerca de 43 milhões de usuários.    O futuro é digital Jovens apoiados pelas organizações sociais Redes da Maré e Instituto Vida Real, que desde o início da pandemia enfrentavam dificuldades para estudar, têm garantido o direito de se conectar e acessar oportunidades. Através de uma ação de empoderamento digital para comunidades de baixa renda, a ONG Recode e o Fundo das Nações Unidas (UNICEF) distribuíram 269 kits de conectividade com smartphones e cartões de acesso à internet para jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social em São Paulo e no Rio de Janeiro.  Além de entregar os kits e oferecer as formações, as instituições acompanham regularmente os jovens durante seis meses, orientando e oferecendo o suporte necessário para o desenvolvimento nos estudos e na futura carreira que pretendem trilhar.  Os detalhes do projeto podem ser obtidos no site recode.org.br/gotecnologia. “A pandemia acelerou a necessidade da inclusão digital. Foi criado um abismo entre as escolas públicas e particulares. Os jovens de baixa

ESG e desigualdade racial

A carne mais barata do mercado não será a carne negra. Esse é o grito de mais da metade da população brasileira, que por anos foram os responsáveis pela construção do país e quase nunca tiveram este valor reconhecido.   Através de muita luta e direitos conquistados, a causa da diversidade racial conseguiu atrair as grandes empresas, os fundos de investimentos, startups e negócios de impacto para analisar essas questões de forma inédita, até então.   Vários fatores influenciam esse sonho, que ainda está engatinhando aqui no Brasil. Podemos destacar os movimentos sociais recentes como o “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), movimento que escancarou a desigualdade racial como fator negativo em todo o mundo.   Urgência por diversidade   A influência das ofertas de recursos ESG (ambiental, social e governança, em português) definiram abertamente as estratégias corporativas de diversidade e inclusão, mostrando os benefícios sociais e os resultados financeiros.   “No Brasil, já percebemos investidores questionando especificamente o management sobre a composição dos conselhos e métricas de diversidade”, afirmou a superintendente executiva jurídica do JPMorgan, Mariana Rizzo, em um webinar realizado pela Bloomberg.   Dentre os desafios enfrentados no setor econômico brasileiro, a prioridade é a criação de um ambiente realmente diverso, inclusivo e equitativo que incorpore as dimensões de raça e gênero em sua gestão estratégica e cultura organizacional.   Quando falamos em diversidade no mercado de trabalho, o recorte mais severo e excludente é em relação às mulheres negras. Historicamente essas pessoas tiveram o acesso à liberdade e educação negados e isto impacta até hoje nos números e métricas da nossa sociedade.   “Menos da metade de mulheres pretas ou pardas com criança pequena em casa estava trabalhando, enquanto para mulheres brancas esse percentual ficou em 62,9%”, exemplificou Luanda Botelho, analista de indicadores sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).   Mesmo com a inserção de políticas públicas mínimas, que possibilitou a abertura de algumas portas na sociedade, esta população ainda esbarra em outra barreira chamada racismo estrutural. E os números comprovam que, mesmo em par de igualdade social, os negros são excluídos e rejeitados nos postos de liderança e tomadas de decisão no mercado.   “Temos 56% de população negra no Brasil. Entretanto, se colocarmos esse percentual frente à promoção da diversidade racial nas empresas, veremos que seus quadros de funcionários demonstram sempre que o maior número populacional de negros não está refletido nos postos de trabalho, tanto nas empresas nacionais quanto nas subsidiárias de multinacionais que atuam no país”, explicou Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, uma das organizações que integra o Pacto de Promoção da Equidade Racial.   Futuro   Para reverter essa situação, foi criado o Pacto de Promoção da Equidade Racial: movimento que reúne mais de 140 iniciativas e pessoas, incluindo representantes da comunidade negra, especialistas financeiros e em ESG, acadêmicos, professores, advogados, econometristas, pesquisadores, empresários, profissionais do terceiro setor e líderes de ONGs e entidades. A iniciativa propõe implementar um Protocolo ESG Racial para o Brasil, colocando a questão no centro do debate econômico e atraindo grandes empresas nacionais e multinacionais para serem aliadas.   Assim, será possível estabelecer novas relações com a sociedade: cidadãos e cidadãs, clientes, consumidores/as de produtos e serviços e com o meio-ambiente, assegurando a participação inclusiva nos processos de tomada de decisões que afetam o cotidiano da vida em sociedade. A principal proposta do Pacto Racial é implementar este Protocolo no Brasil e promover a adoção dele por empresas e investidores institucionais, contemplando ações que estimulem uma maior equidade racial para que faça parte das ações afirmativas, na melhoria da qualidade da educação pública e na formação de profissionais negros. “Em minha opinião, este projeto do Pacto de Promoção da Equidade Racial é um divisor de águas da questão racial no Brasil. O IEER (Índice ESG de Equidade Racial) é um instrumento que permite uma mudança há muito reivindicada no mundo econômico”, opinou Hélio Santos, Presidente do Conselho da OXFAM Brasil.  O que é o IEER? O IEER é um índice que mede o desequilíbrio racial de uma empresa, tendo em vista a composição do quadro de colaboradores por ocupação, os salários médios das ocupações e a distribuição racial na região em que a empresa opera. O objetivo da aplicação desta métrica é maximizar o Índice ESG de Equidade Racial (IEER) nas empresas. Ele deve ser aplicado juntamente com a adoção de ações afirmativas e a realização de investimentos sociais voltados à equidade racial. O processo de análise do Pacto de Promoção da Equidade Racial, com apuração do IEER da empresa, distribui-se em três níveis diferentes: IEER_N1 = reflete a condição de equidade racial atual da empresa, atribuindo maior peso à participação de negros em cargos de liderança. IEER_N2 = considera a adoção de ações afirmativas, que contemplem o recrutamento, permanência e promoção de profissionais negros, garantindo uma mudança cultural sistêmica nas empresas. IEER_N3 = considera, além da adoção de ações afirmativas, os investimentos sociais voltados à equidade racial, dando preferência a organizações com lideranças negras já atuantes e fomentando a criação de novas organizações negras.   O Índice pode ser melhorado com a adoção de ações afirmativas e o compromisso de realizar investimentos em equidade racial dentro dos parâmetros do programa descritos neste documento. O Instituto Ethos constatou através do “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas” que a representatividade de negros e pardos ainda é muito pequena. O levantamento mostra que apenas 6,3% dos negros e pardos estão em cargos de gerência, só 4,7% conquistaram uma vaga executiva e apenas 4,9% estão no conselho administrativo. A representatividade só aumenta em cargos de base, chegando a 35,7% no quadro geral de funcionários. Primeiros passos Buscando reverter essa situação, podemos citar grandes empresas como a Magazine Luiza, que recentemente lançou o programa Trainee 2021 exclusivo para negros. A Bayer, que efetivou a contratação de estagiários e analistas juniores, também vai realizar uma seleção de trainee para contratar pessoas negras.  A Unilever é outro

Como ser sustentável na crise hídrica

A água, além de ser a fonte da vida, nos ensina diversas lições. Observar a força e fluidez deste elemento mostra como devemos agir em momentos de crise. Saber se adaptar é essencial, e assim devemos agir nesta grande crise hídrica que o país enfrenta.  Novas ideias são bem-vindas, como a adoção de hábitos e práticas sustentáveis. Esse estilo de vida deve ser adotado junto às políticas públicas, não só em momentos críticos. Temos que ter consciência de que a água é um bem precioso e esgotável.   “Políticas públicas de regeneração e compensação devem ser repensadas imediatamente se quisermos contribuir para a re-estabilização de nossos ciclos da água e infelizmente, não há tecnologias acessíveis no momento para a redução do consumo de água no agronegócio, se não reduzirmos também o consumo de carnes vermelhas”, comentou Felipe Gregório, arquiteto e fundador da Florescer Brasil.   Preocupados com a situação e focados em soluções, diversos empreendedores sociais decidiram repensar as relações de produção e consumo associados à utilização consciente da água.  A utilização da água no ambiente doméstico, por exemplo, é apenas a ponta do iceberg. O setor produtivo é o principal vilão dessa causa, tanto no consumo do líquido quanto no consumo de energia – que em nosso país é sustentado pelas hidrelétricas.  “Uma das principais ações para combate à crise hídrica é o estabelecimento de políticas e ações para aumento da eficiência no uso da água no contexto da irrigação e da agricultura, atualmente principais responsáveis pelo consumo de água captada no país. Além disso, é necessário enfrentar o enorme desperdício pelo setor de abastecimento, que hoje está na faixa de 39%”, informou Renata Moraes, economista e diretora do Instituto Iguá.  Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, a indústria é responsável por cerca de 22% do consumo do líquido, enquanto a agricultura utiliza a maior parte do recurso: 70% da água do planeta é destinada à irrigação. “Nossa economia é dependente do Agro, isso não podemos negar. Infelizmente os impactos do setor no meio ambiente são evidentes. O avanço do setor nos últimos anos impacta diretamente no potencial hídrico do país, uma vez que mais pastagens significam menos coberturas florestais, responsáveis diretas pelos ciclos da água e pelo controle e manutenção da temperatura”, explicou Felipe.  Boas iniciativas  Algumas empresas estão se adaptando a este cenário. É preciso entender que investimentos em novas tecnologias e modelos de produção sustentáveis também são necessários e rentáveis. No final das contas, o verdadeiro lucro é a preservação do planeta.      O restaurante Divino Fogão, por exemplo, recomenda que os franqueados utilizem torneiras de pedais e apenas inaugurem lojas que contam com esse tipo de peça. Além disso, também indicam redutores de vazão de água em todas as torneiras. “Reunindo a torneira com pedal e o redutor de vazão conseguimos ter uma economia no consumo de água entre 35% e 40% por mês”, destaca o diretor de operações Emiliano Silva.  A Yakult conta com um processo inovador quando o assunto é economia de água. Desde 2015, a empresa utiliza 33 tanques que compõem a Estação de Tratamento de Efluentes (ETE). Eles possuem duas caixas de separação de material sólido e 15 unidades de purificação que  permitem o tratamento biológico e a remoção de cerca de 99% da carga orgânica.  “Com capacidade de tratamento de 1,2 mil metros cúbicos por dia, o que corresponde a 1/3 da capacidade dos três poços artesianos que atendem à fábrica, a ETE possibilita à Yakult uma economia aproximada de 15% no consumo de energia elétrica”, disse o presidente da Yakult do Brasil, Atsushi Nemoto.  Já a empresa Agropalma adotou o reuso como estratégia sustentável. Na unidade de Tailândia (PA), o processo produtivo aproveita a mesma água em fases diferentes do processo de extração de óleo. Como exemplo, a água da fase de secagem volta para a fase de prensagem.  “Substituímos a clarificação estática pela clarificação dinâmica, gerando uma redução de 60% no consumo de água, nesta etapa”, informou Helene Marcelle, gerente de responsabilidade socioambiental da marca.  No segmento social podemos citar o projeto AMA da cervejaria AMBEV, que reverte totalmente os lucros da venda de água mineral em iniciativas para democratizar o acesso à água potável em algumas regiões brasileiras.    A AMA nasceu em 2015, quando o time de sustentabilidade da Ambev deu início à busca por um novo projeto para expandir seus programas de preservação e uso consciente de água. Com esse produto, a cervejaria contribui para o sexto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.  “Essa é uma inovação única no mercado brasileiro porque, quando alguém compra uma garrafa de AMA, 100% do lucro vai para projetos que ajudam quem mais precisa de água”, destacou Bernardo Paiva, presidente da Ambev. Realidade brasileira  O Brasil possui a maior fonte de água potável do mundo: 12% do total existente no planeta está no nosso país. É mais que todo o continente europeu ou africano, por exemplo, que detêm 7% e 10%, respectivamente. Mesmo assim, quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e cerca de 100 milhões não têm esgoto tratado. Desses, 5 milhões e meio estão nas 100 maiores cidades brasileiras, o equivalente à população da Noruega. Esses dados estão no ranking de saneamento apresentado pelo Instituto Trata Brasil.  “Parece difícil acreditar, mas a região amazônica é uma das mais debilitadas em relação à qualidade da água, mesmo estando em meio à um dos maiores rios do mundo (resultado de nossas políticas públicas inoperantes e ineficientes). Só no estado do Amazonas, quase 100 mil são internadas anualmente por conta de diarreia aguda em decorrência do consumo de água imprópria”, destacou Gregório. A Florescer Brasil estima que mais de 70 milhões de pessoas no país não possuem acesso à água potável. Segundo o governo brasileiro, os dados são de 35 milhões, porém estes números não consideram as áreas vulneráveis abastecidas pelas companhias de água apenas uma vez por semana. Novos horizontes Assim, como em todos os aspectos socioeconômicos do nosso país, a desigualdade também se

Marco Temporal: uma luta de todos

Em algum momento, você já se imaginou sendo expulso de casa? Com todos os seus direitos de posse e propriedade negados? O que você faria? Para onde iria? Essa situação inimaginável poderá acontecer no Brasil. Mas, pode ficar tranquilo, sua casa está segura. Porém, diversos povos indígenas estão prestes a perder as terras que protegem e vivem desde antes da colonização europeia. Mesmo parecendo algo distante, isso pode afetar você e todo o planeta. Um estudo realizado pela organização Mapbiomas Brasil, que utilizou imagens de satélites e dados de inteligência artificial, comprovou que, entre 1985 e 2020, as áreas mais preservadas do Brasil foram as terras indígenas. Nesses territórios, tanto os demarcados quanto os que ainda esperam por demarcação, o desmatamento e a perda da área preservada foi de apenas 1,6% no período de 35 anos. “As terras habitadas pelo povo indígena são patrimônio da União. Se o setor privado puder se apropriar dessas terras, vamos estar fazendo a maior privatização de terras no nosso país, o que nunca aconteceu na história do Brasil”, questionou o ativista Ailton Krenak, em entrevista à rede CNN. Marco Temporal A tese do marco temporal é baseada em uma interpretação do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que garantiu o direito dos povos originários sobre suas terras no Brasil. Porém, uma interpretação deturpada desse princípio constitucional está sendo utilizada para retirar direitos dos indígenas. De acordo com o Artigo 231, os povos originários só podem reivindicar territórios que já ocupavam em 5 de outubro de 1988, quando a Constituição foi promulgada. Contudo, o texto da lei não condiciona as demarcações a nenhuma data. Art. 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las. Para os indígenas, o marco temporal ignora que muitos povos não ocupavam suas terras em 1988 porque haviam sido expulsos ou por serem povos nômades. “Foi um decreto de 1996 do então ministro da Justiça, Nelson Jobim, que abriu uma greta para a judicialização das demarcações e, mais tarde, para o argumento do marco temporal. O texto da Constituição é cristalino, mas aquele decreto de regulamentação deu espaço para os interesses de municípios, governos, fazendeiros (…)”, explicou Krenak em entrevista ao jornal O Globo. Mexeu com a natureza, mexeu com todos Hoje, 14% do Brasil é ocupado legalmente por indígenas, considerando os procedimentos demarcatórios já abertos e dados do Diário Oficial da União (DOU). Uma proporção menor que a média mundial (15%), segundo estudo publicado pela revista Nature Sustainability em 2018. As imagens e os dados coletados apontam que os territórios indígenas são mais preservados. Além da perspectiva ambiental, também vale ressaltar os aspectos sociais e culturais que propõem a manutenção de direitos básicos conquistados pelos povos indígenas. Apesar do importante papel que cumprem na preservação ambiental, as terras indígenas estão sob ataque de representantes do agronegócio. Essa causa é uma preocupação global e depende do cuidado e atenção de todos, pois é comprovado que o desmatamento é uma das causas do aquecimento global. O desmatamento tem relação direta com a abertura de pastos para o agronegócio. O relatório do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) somou as emissões relacionadas à atividade rural e observou que elas respondem por até 72% do total de emissões de carbono no Brasil. A tese do marco temporal está sendo julgada pelo Superior Tribunal Federal (STF). Caso os indígenas percam essa causa, será uma derrota de todos nós. Com certeza esses ambientes preservados serão entregues ao agronegócio, contribuindo com o efeito estufa e com o genocídio dos povos nativos, que já vem acontecendo desde 1500. “São as nossas vidas e a vida da humanidade que está em jogo no STF. E ninguém vai calar as nossas vozes. Estamos aqui para reafirmar ao mundo que o Brasil é Terra Indígena e que os povos apoiam o Supremo Tribunal Federal para que a Constituição seja respeitada”, reforça Sonia Guajajara, da coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). A luta continua e você pode fazer parte dela Segundo a Funai, existem quatro motivos principais para se demarcar terras indígenas: Ordenamento fundiário: reduz conflitos pela terra, já que os estados e municípios passam a ter melhores condições de cumprir com suas respectivas atribuições e políticas específicas em relação aos povos indígenas; Garantia da diversidade étnica e cultural: as terras indígenas fazem parte do patrimônio cultural brasileiro, e servem como manutenção dos modos de vida e dos saberes e expressões desses povos, evitando o etnocentrismo, por exemplo; Conservação ambiental: as terras indígenas contribuem para a proteção do meio ambiente e da biodiversidade, já que elas são mais protegidas, segundo dados do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM); Proteção de povos indígenas isolados: são povos que vivem em situação de isolamento voluntário, portanto, vulneráveis a doenças e epidemias. A proteção é pautada nos termos da legislação nacional e internacional. Quer fazer a diferença e ajudar no movimento para garantir os direitos dos nossos povos originários? Saiba como contribuir com a causa Indígena: https://www.greenpeace.org.br/basta-violencia-contra-indigenas

Mulheres, Talibã e o Totalitarismo

De acordo com a filósofa alemã, Hannah Arendt, “o terror e o medo são a espinha dorsal de regimes totalitários por todo o mundo”. Ao pensar nisso, é impossível não lembrarmos da crise humanitária que está se estabelecendo com a retomada do Afeganistão pelo Talibã. O grupo extremista assumiu o comando do país em meados de agosto, após 20 anos fora do poder por conta do domínio norte-americano, e anunciou que formará um novo governo ao conseguir o controle total do território afegão. Essa nova liderança ligou o alerta da população que é contrária ao grupo. Principalmente daqueles que estão em situação de risco, como é o caso das mulheres, que conquistaram direitos importantes no período de permanência das tropas dos EUA. As mulheres foram proibidas de trabalhar durante o primeiro controle do Talibã em 2001. Depois que os radicais islâmicos foram retirados do poder, as mulheres puderam frequentar universidades, ir ao trabalho e até dirigir. No início de 2021, as mulheres ocuparam 27% das cadeiras no Parlamento Nacional.   Foi no começo deste ano também, quando o Talibã, o governo afegão e os EUA iniciaram negociações de paz, que algumas mulheres exercendo suas profissões sofreram ameaças e ataques, incluindo o assassinato de três jornalistas em março.   O depoimento emocionante de Zarifa Ghafari, primeira prefeita eleita do Afeganistão (na cidade de Maidan Shahr), chamou a atenção do mundo para o retrocesso enfrentado pelas mulheres no país.   “Não tem ninguém que possa ajudar a mim ou minha família. Estou aqui sentada com minha família e meu marido. E eles vão vir atrás de pessoas como eu e me matarão. Não posso deixar minha família. Mas, para onde eu iria?”, contou Zarifa ao site britânico iNEWS. No último dia 04 de setembro, combatentes do Talibã interromperam com o uso da força bruta uma manifestação de mulheres na cidade de Cabul. Elas protestavam pela manutenção dos direitos depois que o grupo extremista tomou o Afeganistão. As mulheres presentes relataram que integrantes do Talibã as dispersaram com gás lacrimogêneo e spray de pimenta, enquanto caminhavam de uma ponte até o palácio presidencial. Números de uma guerra interminável   O Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos, da Universidade Brown (EUA), divulgou um relatório sobre a guerra ao terror dos Estados Unidos. A publicação contabilizou o número de mortes entre 480 mil e 507 mil, mas estima-se que esse dado seja provavelmente maior. O relatório também indica que entre 182 mil e 204 mil civis morreram no Iraque, 38 mil no Afeganistão e 23 mil no Paquistão. Cerca de 7 mil americanos morreram no Iraque e no Afeganistão. A guerra consumiu mais de 2 trilhões de dólares (ou 300 milhões por dia) e tirou a vida de 69 mil soldados afegãos, 48 mil civis e 51  mil combatentes extremistas. Uma amarga derrota para a humanidade A retirada das tropas norte-americanas decretam o final de uma era no Oriente Médio. Após quase duas décadas de intervencionismo, tentando combater principalmente os grupos terroristas na região. Este período histórico resultou na captura e morte de dois grandes líderes: Osama Bin Laden e Saddam Hussein. Porém, a imediata retomada do Talibã, mostra que as propostas de democratizar e libertar essas nações não foram alcançadas. O militarismo americano assegurou alguns direitos básicos enquanto esteve presente, mas os grupos extremistas mostraram que, mesmo dispersos, conseguiram ter uma organização imposta pela força, combatendo e dominando seus opositores. Retomando o pensamento de Arendt, mulher judia que fugiu do holocausto, ela descreve o totalitarismo como um governo sustentado, explicitamente, pelo extermínio de setores da população e não apenas na sua opressão ou instrumentalização. Esse padrão dos governos totalitários não diz respeito apenas à exclusão sócio-política, nem à eliminação do opositor ou inimigo, mas a atualização da lógica da descartabilidade humana inerente a essas formas de governo. Comprovamos isso com a atual situação das mulheres afegãs, que estão sendo totalmente descartadas e desumanizadas por esse regime. “Pensar e estar completamente vivo são a mesma coisa, e isto implica que o pensamento tem sempre que começar de novo. É uma atividade que acompanha a vida e tem a ver com conceitos como justiça, felicidade e virtude.” – Hannah Arendt, no livro “A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar”. Mesmo sendo um recorte específico é possível compreender como a sociedade está se comportando diante de situações caóticas por diversos locais do planeta. Entender esses processos também é uma forma de combater fenômenos como o nazismo, as grandes guerras, a desigualdade social e o recente levante fascista. “Estou destruída, mas não vou parar, mesmo que venham me buscar. Não tenho medo de morrer”, confidenciou Zarifa Ghafari que, mesmo sob ameaças, promete lutar por ela e por todas as mulheres afegãs, para assegurar os direitos conquistados.

ESG na prática, além da sigla

O tema ESG é cada vez mais presente no ambiente corporativo. Prova disso é que o termo esteve no topo de pesquisas no Google em 2020. Porém, é necessário saber onde acaba o discurso e começa a prática. Não basta apenas se intitular uma empresa ESG , é preciso mostrar serviço e principalmente exigir fiscalização e transparência. Boas práticas ambientais, sociais e de governança tornaram-se indicadores para agregar valor financeiro às empresas de capital aberto. Isso abriu os olhos do mercado e também dos consumidores, que passaram a cobrar um posicionamento das corporações.   Essas práticas são essenciais para o desenvolvimento de um capitalismo consciente, que siga os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).   Elas transformam o modelo forjado no lucro pelo lucro em um sistema com propósito que, por sua vez, está ligado a um capitalismo que não está focado só nos acionistas, e vai gerar valor para todos, colaboradores, sociedade, planeta. A importância do Capitalismo Consciente para as práticas ESG     Na prática, os conceitos do ESG não são tão simples como parecem. Por isso, é fundamental ter conhecimento de como eles podem ser aplicados na sua empresa antes de tirar os planos do papel. (E)nvironmental – fator Ambiental A primeira letra (E) refere-se às práticas relacionadas à proteção e preservação ambiental. Sua atuação pode se dar na atuação sustentável de questões como: Aquecimento global e emissão de carbono; Poluição do ar e da água; Biodiversidade; Desmatamento; Eficiência energética; Gestão de resíduos; Escassez de água. (S)ocial – fator Social A segunda letra (S) fala sobre as ações voltadas para as pessoas que rodeiam esse universo. Entende-se desde colaboradores até os clientes, com ações como: Satisfação dos clientes; Proteção de dados e privacidade; Diversidade e inclusão da equipe; Engajamento dos funcionários; Relacionamento com a comunidade; Respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas. (G)overnance – fator Governança A última letra da sigla se refere à administração da empresa. São as ações realizadas pelos stakeholders, gestores e setores de RH e Compliance na busca por um ambiente saudável e inclusivo: Composição do Conselho; Estrutura do comitê de auditoria; Conduta corporativa; Remuneração dos executivos; Relação com entidades do governo e políticos; Existência de um canal de denúncias. Realidade “Existe um risco, no entanto, de que a proposta de levar boas práticas para as empresas acabe sendo mais marketing do que propriamente uma mudança de comportamento.” Afinal, o ESG é mesmo uma realidade? Quais métricas são utilizadas para medir essas práticas? Quem fiscaliza isso? Algumas empresas aproveitam dessas ações para mascarar interesses financeiros? “Primeira coisa quando se fala em ESG é que precisamos entender quais as padronagens e padrões mínimos que unificam essa prática, para que possamos entender o que está se fazendo quando se fala em ter um portfólio ESG. Assim, é possível fazer comparações”, ponderou Sérgio Leitão, presidente do Instituto Escolhas. Essas dúvidas deixam em evidência uma falta de transparência do ESG. Não existe um órgão fiscalizador para analisar se o que está sendo divulgado é verdade. Faltam informações e parâmetros para realizar comparações e estabelecer metas. A ONG Global Reporting Initiative (GRI) divulgou um relatório de parâmetros para as organizações seguirem, mas tudo passa pela divulgação das empresas que muitas vezes manipulam, editam ou omitem informações. Alguns exemplos expõem a fragilidade desse sistema. Empresas consideradas ESG, como o Nubank, XP Investimentos e Carrefour, recentemente enfrentaram crises, onde foi exposto o racismo estrutural existente nas instituições. O caso do Carrefour ganhou repercussão nacional com o assassinato de um homem negro. Os seguranças do supermercado espancaram João Alberto Freitas, de 40 anos, até a morte. No aspecto ambiental, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), em 2018, analisou mais de 500 embalagens de produtos para comprovar a prática do greenwashing. Os resultados identificaram que em 48% das embalagens foram encontradas informações falsas sobre a responsabilidade ambiental. “Não é possível fazer comparações. Não consigo saber se um relatório de um banco que tem essas práticas é real, quais foram as métricas utilizadas. Então, a primeira questão é: falta transparência para que a gente possa comparar, avaliar e acreditar qual é o universo real de comparação e de checagem quando alguém diz que tem boas práticas”, ressaltou Leitão. Filtros Mesmo não existindo uma fiscalização efetiva, alguns filtros são aplicados para avaliar essas práticas. As empresas a serem investidas podem fazer parte da carteira, desde que suas notas ESG menores sejam compensadas com a adoção de práticas reparativas nos setores ambientais, sociais e de governança. Tais atitudes resultam em uma melhora nos fatores que deprimem essa nota. Além disso, se uma empresa passa por um evento gravíssimo (por exemplo, a Vale, no caso Brumadinho), ela fica proibida de entrar nos fundos ESG por, no mínimo, dois anos. O mercado percebeu que, para fugir das armadilhas, era preciso investir em pesquisas e gerar conhecimento. Após debruçar na matriz de materialidade de cada empresa, as investidoras criam pesos diferentes para realizar os filtros e assim traçar parâmetros e métricas nas áreas ambientais, sociais e de governança.   A consultoria global KPMG apontou no seu recente relatório “Measuring Stakeholder Capitalism: WEF IBC common metrics” (Medindo o Capitalismo de Stakeholder: WEF IBC métricas comuns) que ainda falta metrificar o quão bem as companhias estão se saindo em ESG em diferentes setores da indústria e locais de atuação.   No mesmo relatório foram apontados cinco pontos para medir o ESG de forma mais assertiva e padronizada: 1. Tópicos que impactam a empresa e a sociedade Neste primeiro passo, a consultoria global destaca a necessidade de se realizar uma análise de melhores práticas; pesquisar tendências na indústria de atuação; identificar as preocupações das partes interessadas; desenvolver uma lista bruta de tópicos de potencial interesse, explorando cada um para compreender a sua relevância aos stakeholders; priorizar métricas que terão impacto na criação de valor sustentável para a empresa e confirmar os tópicos de ação com a administração e o conselho de administração do negócio. 2. Analisar

‘Brasis’ desiguais: recortes da má distribuição de renda

No Brasil, uma pessoa de renda baixa demoraria cerca de nove gerações para atingir a renda mediana do país.       No idioma português, “desigualdade” é uma palavra com somente um significado. Porém, no Brasil ela possui diversas aplicações. Em um país tão diverso como o nosso, a pluralidade está em quase todos os cantos, menos em um lugar: na distribuição de renda.   Tanto quanto o samba e o futebol, a disparidade social é uma marca registrada da cultura brasileira. O país sempre é destaque negativo em pesquisas e estudos mundiais. Atualmente é o oitavo mais desigual do planeta, sendo o pior da américa latina e ficando à frente somente de nações africanas.   Essa informação foi divulgada por um dos indicadores utilizados pela ONU no relatório mundial sobre Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado em 2020. No estudo mais recente, o Brasil caiu 5 posições em relação ao ano anterior (2019).   Obviamente os impactos da pandemia do Covid-19 influenciaram nesses números, mas essa não é a única causa. Afinal, o que faz o Brasil um país tão desigual? Qual a face da pobreza no Brasil? Quais políticas públicas e institucionais estão sendo adotadas para resolver essas questões?   As desigualdades   Todo um processo histórico e social fizeram do Brasil um país desigual. Marcas da escravidão, da colonização exploratória e de uma política de favorecimentos geográficos ainda pesam sobre a realidade atual. Dependendo das camadas sociais, raciais, de gênero e orientação sexual, essa disparidade se torna absurda.   “O Brasil é hoje um país majoritariamente negro e feminino, governado por homens brancos. Estamos evidenciando …os elementos que impossibilitam uma resposta adequada da política nacional aos desafios que temos: crise econômica, pandemia de covid-19, vulnerabilidade de milhões de negros, mulheres, indígenas e pessoas LGBTQI+”, comenta Helio Santos, presidente do Conselho da Oxfam Brasil.   A falta de políticas públicas e a pouca atenção em indicadores como educação, qualidade de vida, qualificação de mão de obra, geração de empregos e taxação de grandes riquezas criaram esta realidade caótica. Um labirinto onde cada vez é mais difícil sair, pois não existem propostas concretas em nenhum dos cenários políticos que se propõem a governar a nação.   “A ideia é que o candidato (político) que não perceber que essa é a questão central que impede o país de ter uma sustentabilidade procure outro emprego”, disse Hélio Santos, em entrevista à Folha de São Paulo.   Negros – De acordo com dados do IBGE, as taxas de pobreza e extrema pobreza no Brasil são maiores entre a população negra. Em 2018, 32,9% de pretos e pardos viviam com menos de $5,50 por dia, valor adotado pelo Banco Mundial para indicar a linha de pobreza em economias médias.   Em situação de extrema pobreza, que é quando a pessoa vive com menos de $1,90 por dia, estão 8,8% da população negra no Brasil. A medida de comparação, somente 3,6% da população branca, ocupa a mesma posição.       Mulheres – A pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Oxfam Brasil, 68% dos entrevistados concordam que ser mulher impacta diretamente na renda. Diversos fatores contribuem para isso, como: salários inferiores, menor inserção no mercado de trabalho e também uma maior participação nos afazeres domésticos.   Em estudo recente publicado pelo Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP), estima-se que 61,1 milhões de pessoas estejam em situação de pobreza no Brasil em 2021. Dentre essas, 56% são mulheres e dessas 38% são negras.   Norte/Nordeste – A desigualdade geográfica também é visível nos muitos ‘Brasis’. O desequilíbrio demográfico, a falta de investimentos, o desequilíbrio no desenvolvimento industrial e uma má distribuição de verbas destinadas a políticas inclusivas criaram barreiras sociais que separam as regiões brasileiras.   De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, que separou Coeficientes de Desequilíbrio Regional (CDR), mostra que a média do rendimento domiciliar brasileiros é de R$ 1.380,00. Porém, nas regiões norte (R$ 925) e nordeste (R$ 916) ficam abaixo da média.   Se separarmos esses números por estados a disparidade fica ainda maior. Em 2020, o mesmo índice do IBGE apresentou que o Maranhão teve uma média de apenas R$ 635,59 enquanto no Distrito Federal esse mesmo índice é de R$ 2.685,76.       Fonte: IBGE Imagem: Reprodução G1   Difícil Escalada O abismo é muito profundo e extremamente difícil de ser escalado. Ascender socialmente no Brasil é muito complexo se você não vier de uma família de posses. Em um ranking de mobilidade social divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (2020), o país está na 60ª posição entre 82 economias.   Este mesmo relatório aponta que, no Brasil, uma pessoa de renda baixa demoraria cerca de nove gerações para atingir a renda mediana do país. Mesmo com a inserção de políticas assistencialistas, esse ‘upgrade social’ continua sendo difícil, pois não alcança todas as camadas, são insuficientes e mal implementadas.   As diferenças sociais são, na verdade, um projeto político de manutenção de poder pelas classes dominantes. A falta de representatividade política entre as minorias é um fator determinante para reverter essa situação.   Ações   O Instituto Oxfam propõe um guia de 10 ações urgentes contra as desigualdades no Brasil, que podem garantir um futuro com melhores oportunidades à população.   Enfrentar o racismo. Equilibrar o sistema tributário. Promover a oferta de trabalho. Revogar a Emenda do Teto de Gastos. Enfrentar a Discriminação Contra as Mulheres. Tributar lucros, dividendos e heranças. Combater a concentração de terras. Investir em Saúde e Educação. Melhor Qualidade do Gasto Público. Combate à Corrupção. “Finalmente, entendemos o seguinte: se etnia e raça foram utilizadas para excluir, devem ser utilizadas como critério para incluir”, comentou Santos, em entrevista para Época Negócios.

Quanto tempo temos? Mudanças climáticas e os impactos na economia brasileira

O impacto no agronegócio brasileiro O Brasil é um país referência no setor agrário, e cada vez mais vem sofrendo com as alterações climáticas. Plantações inteiras destruídas pela seca ou então congeladas, locais conhecidos pelo frio fazendo calor, regiões tropicais abaladas por frentes frias.   Até parece o roteiro de algum filme pós-apocalíptico, mas não é. O aquecimento global é real e as consequências mostram que estamos vivendo um período intenso de mudanças.   Por muito tempo, o desenvolvimento econômico foi inverso à preservação da natureza e à sustentabilidade. O desmatamento, as queimadas, a emissão de gases aceleraram em décadas o processo de aquecimento global.   Hoje, o planeta Terra está 1º C mais quente que o período pré-industrial e até a economia já sente os impactos dessas mudanças. Somente o Brasil tem perdas anuais entre 0.4% e 1.8% do produto interno bruto (PIB) por conta das mudanças climáticas.   Até 2040, estima-se que a Terra esquente mais 0,5º C, se ações concretas não forem adotadas. No âmbito econômico, o setor primário é o mais afetado. Se não houver comprometimento e engajamento de todos, do governo ao cidadão, as futuras gerações vão sofrer consequências ainda piores do que já estamos enfrentando.   Estudo aponta baixa na produtividade entre 2020 e 2100   As estimativas apresentadas na dissertação de mestrado “Mudanças climáticas no Brasil: efeitos sistêmicos sobre a economia brasileira provenientes de alterações na produtividade agrícola”, produzida por Bruno Santos de Souza e divulgada pelo Instituto Escolhas, apontam que as perdas econômicas totais poderão representar até cerca de 0,7% do PIB, sob um cenário otimista.   “Segundo o estudo esses prejuízos podem chegar a quase 4% do PIB do país, o que é muitíssimo grave, um volume de recursos que vai prejudicar e muito o Brasil. Uma queda de 4% arrasa com qualquer economia. As mudanças já são uma realidade e as perdas para o setor mais dinâmico da economia são terríveis. Pena que muitos dos setores da agronomia não tomaram consciência e fazem esse namoro perigoso com o negacionismo”, comentou Sérgio Leitão, advogado, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas.   A análise feita pelo Instituto Escolhas estima que as culturas de soja, cana-de-açúcar, milho, feijão, café e laranja terão baixa na sua produtividade entre 2020 e 2100. Essas culturas representam cerca de 82% da produção do país. Consequentemente, essas plantações são mais dependentes das condições climáticas e apresentam uma baixa taxa de adaptabilidade.       Fonte: Instituto Escolhas Se novos hábitos não forem adotados em todo o planeta, essa situação será irreversível, pelo menos é o que diz o estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sigla em inglês do órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, boas práticas ambientais são valiosas no mercado financeiro, muitas vezes adotadas como políticas institucionais.   “É fundamental a gente entender que isso só vai ocorrer quando o fluxo de recursos de investimento mudar. Ou seja, quando o dinheiro sair daquelas atividades que hoje estão ligadas aos negócios que provocam a mudança climática”, explicou Leitão.   O perigo da desinformação   Uma das recomendações do Instituto Escolhas para diminuir o impacto do aquecimento global é a transparência de informação e o compartilhamento de dados reais sobre o tema.   O negacionismo e a desinformação são armas constantemente utilizadas por setores conservadores tanto na política, quanto na economia. Eles ganham força principalmente em uma população sem acesso à informação, desinstruída e sem posicionamento político, social e ambiental.   “O problema faz parte da vida das pessoas, elas sabem o que é o frio, o que é o calor, o agricultor sabe o que é a perda da sua produção, sabe o que é a quebra de uma safra, sabe o que é uma seca. A gente não tem que fazer uma comunicação que seja científica na escrita, mas ela tem que estar ancorada nos dados científicos. Tem que falar a língua do povo. Para combater o negacionismo usamos informação qualificada, traduzida e simplificada para as pessoas entenderem”, comentou Sérgio Leitão.   O IPCC é uma ferramenta aliada nessa luta contra a desinformação, constantemente divulgando dados e estudos sobre o aquecimento global e as consequências no planeta. Recentemente o instituto divulgou um relatório sobre as mudanças climáticas que chocou o mundo: diante de mudanças sem precedentes no clima, algumas delas podem ser irreversíveis.   Confira nove pontos listados pelo relatório do IPCC sobre o impacto do aquecimento global na Terra: A temperatura da superfície terrestre subiu mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos visto nos últimos 2 mil anos; As ondas de calor se tornaram mais frequentes e mais intensas em quase todos os continentes do planeta desde 1950, enquanto frios extremos se tornaram menos frequentes e menos severos; Nas últimas 4 décadas, houve um aumento da proporção de ciclones tropicais; A influência humana aumentou a chance de eventos extremos desde 1950 e isso inclui a frequência da ocorrência de ondas de calor, secas em escala global, incidência de fogo e inundações. Em 2019, a concentração de CO² na atmosfera era maior do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos e a concentração de metano e óxido nitroso era a maior em 800 mil anos; As ondas de calor marítimas ficaram aproximadamente duas vezes mais frequentes desde 1980; Entre 2011 e 2020, a área média de gelo no Ártico atingiu seu número mais baixo desde pelo menos 1850 e era, no final do verão, menor do que em qualquer época nos últimos mil anos; O recuo das geleiras – com uma redução sincronizada em qualquer todas as geleiras do mundo desde os anos 50 — é sem precedentes pelo menos pelos últimos 2 mil anos; O nível médio do mar aumentou mais rápido desde 1900 do que em qualquer século em pelo menos nos últimos 3 mil anos.   Como reverter o cenário atual   A análise do Instituto Escolhas também aponta algumas estratégias de políticas públicas que podem ser

Toque de Midas: Japão transforma e-lixo em ouro

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, mesmo que controversos por conta da pandemia do Covid-19, são um exemplo de sustentabilidade. O país asiático é referência em associar desenvolvimento, tecnologia e práticas sustentáveis. Esse esforço se refletiu durante toda a competição e até o tão sonhado ouro olímpico ganhou uma simbologia especial, pois até pouco tempo era apenas e-lixo. De acordo com a ONU, aproximadamente 53,6 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram geradas no planeta em 2019. Tendo como base os últimos cinco anos, houve um aumento considerável de 21%. O relatório The Global E-waste Monitor 2020 também prevê que esses resíduos chegarão a 74 milhões nos próximos dez anos, quase o dobro do que está sendo produzido atualmente. Por conta do avançado desenvolvimento tecnológico entre abril de 2017 e março de 2019, foram coletadas mais de 78 mil toneladas de lixo eletrônico no país-sede e aproximadamente 6 milhões de aparelhos quebrados ou antigos, segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI). Desse material, boa parte foi recuperada e reutilizada na produção de novos produtos, inclusive na produção das medalhas, símbolo dos jogos olímpicos. Por ser um arquipélago, os recursos naturais no Japão são limitados. Então, o ouro e a prata contidos em eletrônicos no país são extremamente valiosos. Segundo informação do Nikkei Asian Review, somente em 2014 foram retirados de produtos descartados: 143 quilos de ouro; 1,5 tonelada de prata e 1,1 tonelada de cobre. Economia Circular Japonesa A reciclagem já faz parte da cultura japonesa. Produtos descartados não são tratados como resíduos e, sim, como recursos. A alta demanda de tecnologia empregada para a recuperação dos produtos descartados faz com que a população participe ativamente do processo. “A falta de cultura para o descarte correto está associada ao pensamento de “meio ciclo” e ao desenvolvimento de produtos com foco somente na fase de uso. Não fazemos a associação da reciclagem como um processo de transformação de resíduos em novos materiais e novos produtos. É isso que o Japão está fazendo de forma brilhante: nos mostrando que com design, qualidade e performance, os resíduos podem ser transformados em belos produtos. E por isso não existe a percepção de descarte e nem de lixo!”, comentou Beatriz Luz, fundadora da Exchange 4 Change Brasil e do Hub de Economia Circular. O Brasil não sobe no pódio Líder na América Latina na produção de resíduos eletrônicos, o Brasil produz 1,5 toneladas de lixo por ano e somente 3% é descartado de maneira adequada com 2% de reaproveitamento. O alto custo da coleta, as dificuldades operacionais na logística e o fato de que, atualmente, fazer a reciclagem desses equipamentos não garante nenhum tipo de incentivo fiscal para a indústria, são desafios para o país avançar nesse sentido. Logística Reversa A logística reversa, regulamentada pelo decreto federal 10.240, de 2020, estabelece que os consumidores só podem realizar descarte de resíduos eletrônicos em pontos específicos de recebimento. A recepção e armazenamento desses equipamentos deve ser feita pelo comerciante responsável por realizar o transporte dos eletroeletrônicos até o destino final ambientalmente adequado (reciclagem). Essa operacionalização do sistema de logística reversa começou a funcionar em 1º de janeiro de 2021, com a habilitação de prestadores de serviço, confecção dos planos de comunicação e de educação ambiental e instalação de pontos de recebimento desses equipamentos. Instituições como a Associação Brasileira de Reciclagem de Eletrônicos e Eletrodomésticos (ABEE) e até empresas do setor privado já estão realizando essas atividades em cooperação com ecopontos, recicladores e catadores. De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos deve ser compartilhada. Com isso, empresas produtoras de tecnologia portátil de alta rotatividade devem apresentar programas e projetos para descarte correto dos eletroeletrônicos, visando a reciclagem e reutilização dos materiais que forem coletados pelas mesmas. Qual a melhor forma de descartar seu e-lixo? Guarde-o com você até ir a um centro de coleta da sua cidade; No site da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletrônicos e Eletrodomésticos (ABEE) existe uma plataforma que mostra pontos de coleta próximo de sua casa, acesse o link: http://abree.org.br/pontos-de-recebimento Caso não tenha um centro de coleta na sua cidade, procure empresas que fabricam ou vendem estes produtos para que possam ser descartados; Procure um centro universitário que acolha estes objetos para estudo ou para reutilização.