A bioeconomia precisa de investimentos: entrevista com Jaqueline Ferreira
Por Instituto Escolhas Décadas de pesado investimento público fizeram do agronegócio brasileiro uma potência. Mas o que aconteceria se a bioeconomia recebesse a mesma atenção e os mesmos incentivos? Essa é a reflexão à qual nos convida Jaqueline Ferreira, doutora em Ciências Sociais e gerente de portfólio do Instituto Escolhas. Nesta entrevista, Jaqueline fala sobre a repercussão do recente estudo que abordou a correlação entre o agronegócio brasileiro e os índices de desmatamento, coordenado por ela e lançado pelo Escolhas em fevereiro. Instituto Escolhas: Todos os anos, o agronegócio publica números grandiosos de produtividade. Para alguns, esses dados evidenciam o desenvolvimento do país. Nesse contexto, qual é a importância dos números trazidos para o debate socioambiental? Jaqueline Ferreira: Os números do agro – de participação no PIB, volume recorde de safra e aumentos recordes de produtividade – dizem sobre a economia. Mas eles não dizem sobre a relação da economia com os recursos naturais, o meio ambiente ou os impactos socioambientais, que também são muito relevantes quando a gente aperta todas as chaves de análise do desenvolvimento sustentável. Em 2017, por exemplo, o Escolhas fez uma pergunta bastante genuína, cuja resposta não sabíamos. A pergunta era: se o Brasil, de fato, acabar com o desmatamento, qual o impacto disso no PIB? Naquele momento, quando o agro ainda afirmava a necessidade de desmatar para produzir, o estudo do Escolhas mostrou que esse impacto no PIB não chegaria a 1%. Ou seja, o discurso de que o Brasil não precisa mais desmatar para produzir alimentos não era tão claro naquele momento e, hoje, ele está na boca da ministra Tereza Cristina e de grandes lideranças do agronegócio. É para isso que vamos em busca dos números: para desmistificar a oposição entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável. O estudo “Como o agro brasileiro se beneficia do desmatamento?” , coordenado por você e lançado em fevereiro, gerou um certo mal-estar junto a pessoas ligadas ao setor agropecuário. Como você analisa essa crítica e o que ela revela sobre o debate em torno da questão do desmatamento? Tem duas formas de responder isso. A primeira é por meio dos números do próprio estudo: 93,5% dos municípios brasileiros tiveram depreciação do preço da terra devido ao desmatamento, no período analisado. Então os produtores que decidiram expandir sua área de produção nesses municípios – lembrando que essa expansão só é possível graças à existência de áreas desmatadas, legal ou ilegalmente – pagaram pela terra menos do que pagariam se não houvesse desmatamento. O estudo também mostrou que 50% do volume total da desvalorização da terra ficou concentrado em apenas 61 municípios, localizados nas áreas de fronteiras agrícolas. O que isso significa na prática? Que os produtores que aumentaram suas áreas de cultivo se beneficiaram, mas aquele produtor que não pode ou não quis expandir a sua área produtiva foi prejudicado, já que sua terra perdeu valor. Nesse sentido, os números do estudo mostram que tem, sim, diferenças em como o agronegócio se beneficia do desmatamento. A pesquisa também nos mostra como é sistêmica e estrutural a relação entre desmatamento e aumento da produtividade e competitividade do setor. Agora, vamos falar da segunda resposta possível para entender essa reação do agro. É muito comum ver o agronegócio tentar se diferenciar quando a gente fala de desmatamento: “Ah, quem desmata são os outros, são os da fronteira, são os grileiros, são os que estão fora da lei”. Mas, ao mesmo tempo, a representação política desse setor no Congresso Nacional apoia projetos e emendas que fragilizam o controle do desmatamento. Nesse caso, a atuação coesa termina por favorecer os produtores que optam pela abertura de novas áreas para produzir? Exatamente. Veja o caso da rastreabilidade da produção agropecuária. Há décadas, fala-se sobre a necessidade de rastrear a origem da soja, carne e de outros produtos. Temos tecnologia para isso. Temos sistema de monitoramento via satélite. Mas algumas frentes do agro se esquivam de uma rastreabilidade efetiva. E por quê? Porque é frágil essa afirmação de que o setor não está vinculado ao desmatamento. E vamos lembrar que esse setor vai além do produtor: a cadeia do agronegócio inclui frigoríficos, grandes compradores de grãos, distribuidores… Na edição de janeiro, entrevistamos a professora Luciana Fernandes Veiga e ela pontuou a força do discurso do agro, que foca na geração de empregos e divisas. Pensando nisso, que estudos poderiam oferecer uma narrativa capaz de evidenciar também a força econômica da floresta? Desde 2020, o Escolhas vem propondo caminhos para destravar a agenda da bioeconomia. Sabemos que vai demorar muitos anos para que a economia da floresta em pé tenha um peso equivalente ao tamanho que o agro tem hoje. Por isso, é importante começar já a mudar a chave e reconhecer o potencial da bioeconomia, especialmente em um país megabiodiverso como o Brasil. Agora, é injusto achar que a bioeconomia vai se levantar por si só. Nem o agronegócio se levantou por si só: foram anos e anos de pesados investimentos do poder público. Então, se nossos governantes entendem que a bioeconomia é um setor importante para o país – como nós da sociedade civil já entendemos – precisam direcionar recursos para isso. Para dar suporte a esse processo, o Escolhas vem analisando não só quais são as mudanças no marco legal que precisam ser feitas para destravar a bioeconomia, mas também quais são as atividades com mais alto potencial e o que precisa ser feito para que elas deslanchem. Neste momento, por exemplo, estamos trabalhando com o tema da assistência técnica e extensão rural para a cadeias produtivas da bioeconomia da Amazônia e levantando possibilidades sobre o que deve ser feito concretamente para que a assessoria técnica seja capaz de destravar os gargalos que essas cadeias encontram para produzir e comercializar. Vamos lembrar que foi esse o caminho que o país escolheu lá atrás, com a criação da Embrapa e todo o investimento tecnológico, para fortalecer e consolidar o agronegócio. Em certa medida, estamos falando de uma outra visão de desenvolvimento
Você pertence à qual comunidade?
O anúncio da volta do Orkut deixou todos eufóricos na internet! A rede social que fez sucesso no Brasil em meados dos anos 2000 foi uma das pioneiras em conectar pessoas através da segmentação por comunidades. Infelizmente o CIVI-CO não nasceu na era do Orkut, mas não deixamos de ser uma comunidade de transformadores de impacto positivo que vocês já conhecem. Afinal, “o CIVI-CO só acontece quando a comunidade acontece”. =) Podem deixar seus depoimentos lá nas nossas páginas. kkkkkk Porém, o que vamos falar aqui hoje não é sobre isso. Calma, pelo menos ainda não! Só inserimos essa ideia para falar de outras comunidades. Se você acompanha as nossas redes sociais,já está por dentro de toda movimentação em torno do nosso Hub Bioeconomia Amazônica. Visita CIVI-CA Conectados através das ações do Hub e de conexões feitas pela Iara Vicente, fundadora da Nossa Terra Firme, as equipes do Instituto Humanitas360 (@humanitas360) e do CIVI-CO fizeram uma imersão especial na comunidade do Povo Paiter Suruí em Cacoal, no estado de Rondônia. Retribuindo a visita realizada por eles aqui no CIVI-CO, essa também foi uma forma de aprender mais sobre os povos originários brasileiros e conhecer como funciona este polo de produção bioeconômico. Fomos recebidos pelo cacique Almir Suruí (@almir_narayamoga), que nos apresentou a Associação Metareilá (@metareila) e as atividades de bioeconomia desenvolvidas nas áreas de reflorestamento próximas à comunidade, como: produção de castanhas, plantações de café e banana e nos encantamos com o artesanato local. Entre uma conversa e outra também apresentamos alguns de nossos projetos socioambientais como a Tereza Vale a Pena (@terezavaleapena), cooperativa que gera emprego e renda para pessoas socialmente vulneráveis através do artesanato e moda sustentável. Patrícia Villela Marino, cofundadora do CIVI-CO e presidente do H360, comentou sobre a importância de se conectar com o povo Paiter Suruí e a sabedoria e ancestralidade das comunidades indígenas e amazônicas: “Foi uma visita fundamental para a contextualização pedagógica e aterrisagem da alma, inquieta pela curiosidade, mas, também, pelo entusiasmo de conhecer mais daqueles que já conhecem quase tudo de um Brasil sábio, soberano e equilibrado na sua origem e não ensoberbecido pela sua história e nem sórdido pela sua atualidade.” Na Associação Metareliá, antes de seguir para a aldeia, conhecemos a história de luta e resistência do povo Suruí, quase exterminado desde o contato com com a “civilização”, cujo sofrimento e dor não foram suficientes para sua vitimização. Na sede da Associação tivemos a oportunidade de passar por uma revisão histórica com fotos, filmes, dados e depoimentos que nos incitam, a todos e todas, ao letramento racial e cultural tão necessário para firmarmos compromisso ético, inegociável, com a justiça climática. Abril Livre A nossa visita ao povo Paiter Suruí coincidiu justamente com a época do ano em que é celebrado o mês de luta e defesa dos direitos indígenas no Brasil. Neste ano, a ação mais marcante dessa data foi o Acampamento Terra Livre, um evento de mobilização dos povos indígenas do Brasil em torno de seus direitos constitucionais, que acontece anualmente desde o ano de 2004. Mobilizados contra o Projeto de Lei 191/2020, que pretende abrir as terras indígenas para a mineração, cerca de 8 mil indígenas se reuniram por dez dias em frente à Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A Comunidade CIVICO esteve presente no acampamento, representada através da presença da Iara Vicente, coordenadora do Hub Bioeconomia Amazônica. Iara é ativista dos direitos dos povos originários e sempre levanta a pauta da bioeconomia como medida de sobrevivência desses agrupamentos. Conheça o Hub Bioeconomia Amazônica
Diversidade: só um tema bonito ou imprescindível?
Por Janine Rodrigues Para a primeira edição da CIVI-CO Mag, da qual aceitei alegremente o convite para ser a editora dos conteúdos de Educação, quero compartilhar um tema sobre o qual estudo formalmente desde 2009, mas que vivencio desde que nasci. Estou falando sobre a tão aclamada diversidade, que passou de ignorada pela sociedade a queridinha de marcas, empresas e escolas nos últimos anos. Algo incrível e benéfico, se a reconhecermos como essencial e não como modinha. Passei a maior parte da infância numa cidadezinha do interior do Rio de Janeiro chamada Cardoso Moreira. Minha família era muito querida na cidade. Eu estudava numa escola particular. No meu bairro e na igreja que frequentava havia crianças de escolas públicas. Minha irmã mais velha morava na Capital e de tempos em tempos íamos visitá-la. Minha mãe nunca me proibiu de brincar com meninos. De ter amizade com pessoas de religiões diferentes. Tínhamos uma situação econômica simples. Tínhamos amigos em situação econômica inferior e bem superior à nossa. Sempre adorei filmes. Minha mãe não (ela sempre dorme no meio ou muda de canal). Eu cantava maculelê na escola e em casa cantigas de roda, músicas da igreja e pop nacional. Em Cardoso, brincava de pé no chão, subia em árvores, andava de bicicleta e assistia teatro a céu aberto na praça principal. Na Capital, adorava visitar museus e pensar como eram aqueles tempos retratados pelas exposições. Ia à praia. Adorava fast food. E sei lá por que um dos meus sonhos era ter uma calculadora. Naquela época eu não pensava diretamente sobre a diversidade, mas hoje, vejo como ela sempre esteve presente em todas as áreas da minha vida. A diversidade pode ser estética, cultural, religiosa, social, econômica. Mas além disso tudo, a diversidade está no detalhe. Dentro de sua casa. Entre você e sua família já existe muita diversidade se você pensar em ideais, opiniões, gostos, crenças… Ignorar a diversidade é impossibilitar a equidade. Ou ela é respeitada, e daí é possível uma boa convivência, ou estaremos sempre limitados. É válido dominar um assunto e não ter empatia? É inteligente ter na equipe um profissional que é um magnífico técnico, mas que não sabe conviver e gera um ambiente tóxico para os demais? Faz sentido uma escola com ótima infraestrutura, mas sem vínculos de afeto com a comunidade escolar? Quando a UNESCO nos ensina seus 4 C’s (conviver, criticar, comunicar e criar), podemos analisar: é possível desenvolver tais habilidades sem valorizar e reconhecer a diversidade que existe entre nós? Somos o que somos também por influência do meio em que vivemos. Convivemos. E você, já parou para pensar que não há diferença sem referência? A diversidade é isso. Se há uma crença de que uma etnia, uma cultura, uma estética, um saber são as referências, então, de fato falaremos em diferença. A questão é que, em se tratando da humanidade, da natureza, não há referência única e sim saberes diversos. O conhecimento de quem lida com a língua é mais importante do que aquele que lida com números? É desprovido de saber aquele que não fala e escreve seguindo a norma ”culta” da língua? Não vamos romantizar a precarização da Educação, mas, uma pessoa que não fala ou não escreve segundo a ”norma culta” da língua, deve ter todo seu conhecimento invalidado? Quantas vezes em projetos ouvimos a expressão: “este trabalho levou cultura, levou educação”. Esta não seria uma forma de dizer que não existia nada ali? Se você reconhece que há sim conhecimento ali, diria: Este projeto contribuiu para, ampliou, aumentou, fomentou… Eu não respeito a sua diferença. Eu respeito a sua diferença de mim e você respeita a minha diferença de você, visto que não somos referência única sobre coisa alguma. Somos diversos. Respeitar a diversidade, reconhecer seu valor é acreditar e exercer a educação verdadeira, baseada no respeito, no afeto, no que há de mais humano em nós. Até o próximo papo! *Janine Rodrigues é educadora, escritora, especialista em diversidade e fundadora da Piraporiando.
REFUGIARTE: quando a arte fala
Uma das principais barreiras para pessoas refugiadas é a comunicação. É difícil interagir e se adaptar em ambientes no qual você não consegue se expressar. Porém, a comunicação é um fenômeno complexo e se manifesta de diversas formas – e uma delas é a arte. A produção artística é uma das ferramentas utilizadas pelo Instituto Estou Refugiado para incluir e ajudar essas pessoas que estão fora de seus países de origem a interagir e socializar no Brasil. “É a experiência, e não a compreensão, que influencia o comportamento”. A partir deste pensamento do filósofo e comunicólogo Marshall McLuhan, o mesmo que dizia que o “meio é a mensagem”, podemos refletir sobre a escolha da arte como forma de comunicação de uma pessoa que não sabe o idioma local. A arte envereda por caminhos subjetivos, diferente dos nossos meios de comunicação formais, como a linguagem ou a escrita, que são baseados em um sistema complexo de codificação e decodificação e que sofrem variações culturais. Estou Refugiado Fundada em 2017, a ONG Estou Refugiado possui base em São Paulo e tem uma tarefa: fazer a ponte entre empresários e empresas que queiram contratar refugiados para atuarem em postos de trabalho. Membro da Comunidade CIVI-CO, atualmente a ONG realizou duas ações envolvendo arte e inclusão de refugiados: CORES NO MUNDO A primeira foi o projeto “Cores do Mundo”, que tem a proposta de transformar os tapumes das construções em galerias a céu aberto pintadas por artistas refugiados, como no caso recente do Lavï Israel, congolês e residente do projeto, que pintou um painel em um novo empreendimento da Tecnisa. Além das ruas, o projeto está presente na rede blockchain. Todo o valor arrecadado é revertido para os próprios artistas, além de subsidiar a expansão do projeto e outras iniciativas na busca da inserção social por meio do trabalho. Visite o site e adquira sua peça. Opensea.io/ColorsOfTheWorld-RefugeeArt RETRATOS DE UMA NOVA VIDA “A era da Fotografia é também a das revoluções, das contestações, dos atentados, das explosões, em suma, das impaciências”. Este é um trecho do livro “ A Câmera Clara”, de Roland Barthes, no qual ele faz uma análise semiótica sobre a fotografia e a pós-modernidade. Dentro deste mundo globalizado, um grupo de jovens afegãos refugiados no Brasil utilizam toda a contestação e revolução contida em suas fotos para se comunicar com um país estrangeiro a partir de suas histórias. São quatro mulheres fotógrafas (Mahboba Rezayi, Shikofa Rasuli, Zahra Karimi e Masuma Yawari) e um fotógrafo (Morteza Rezahi). O Estou Refugiado participou de uma ação para trazer o grupo para o Brasil, onde esses(as) jovens tiveram a chance de recomeçar suas vidas por aqui. Exemplo disso foi a parceria com a empresa Dress and Go, que inseriu três desses refugiados no seu time de colaboradores. Também foi realizada uma interação dentro da programação do ZIV Mulheres, no Mês Internacional das Mulheres, onde a Ziv Gallery convidou as fotógrafas afegãs para produzirem as obras que estiveram em exposição na galeria, do Beco do Batman. Realidade dos refugiados no Brasil Em 2020 foram registrados 26.653 refugiados no Brasil. Em 2021, esse número caiu para 3 mil. Ao todo, 54.004 refugiados foram reconhecidos pelo Comitê e cerca de 21 mil tiveram registros indeferidos. Até o momento, o país tem refugiados de 77 nacionalidades, com a Venezuela em primeiro lugar, representando 90,82% dos casos. O número elevado em 2020 ocorreu em razão do fluxo de imigrantes da Venezuela durante a grave e generalizada crise humanitária, reconhecida pelo CONARE. A Síria e a República Democrática do Congo ocupam o segundo e terceiro lugar do ranking com 3,91% e 1,22% de casos, respectivamente. Em 2020, 75% das solicitações apreciadas pelo CONARE foram registradas nas Unidades da Federação (UF) que compõem a região norte do Brasil. O estado de Roraima concentrou o maior volume de solicitações de refúgio apreciadas pelo CONARE (60%), seguida pelo Amazonas (10%) e São Paulo (9%). A Organização Internacional para Migrações, OIM, e a Agência da ONU para Refugiados, Acnur, precisam de 1,79 bilhão de dólares para prestar auxílio aos refugiados e migrantes da Venezuela e suas comunidades de acolhida. Os dados estão disponíveis no estudo “Refúgio em Números” da Agência da ONU para refugiados. Confira o material completo: https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2021/06/Refugio_em_Numeros_6a_edicao.pdf
Primeiros passos para criar sua série, entrevista com Jotagá Crema
Por Lúcia Lima* Em maio, o b_arco inicia mais uma turma do curso online “Projetos de Séries para TV – da Ideia ao Pitching” com Jotagá Crema, um dos criadores da série “3%”, produção brasileira de ficção científica desenvolvida para a Netflix. Os cursos regulares do b_arco tem como proposta o desenvolvimento de seu projeto, com atenção dedicada do professor a uma turma reduzida e encontros semanais em videoconferência. No curso, Jotagá pretende formar uma grande sala de roteiro com alunos e seus projetos de séries. Durante dois meses, os encontros serão baseados em projetos de cada aluno, discutidos coletivamente em sala, para aprofundá-los tanto dramaticamente quanto comercialmente. As inscrições para a nova turma ainda estão abertas! Em entrevista ao blog do b_arco, o professor, que tem experiência justamente em viabilizar projetos de séries de TV, dá algumas dicas para iniciantes e comenta os primeiros passos de um projeto – da ideia às telas. Confira abaixo: Quais os primeiros passos para quem tem uma ideia que pretende transformar em uma série para TV? J: O primeiro passo depende da formação de quem tem uma ideia para transformar em uma série de TV. Se a pessoa já conhece o mercado audiovisual, já tem experiência em escrever roteiros e já estudou sobre roteiros de séries de TV, o primeiro passo seria formatar uma bíblia de vendas e levar a festivais que possibilitam contato com players ou produtores. Eu recomendo sempre começar a relação com produtores e depois levar a canais. Para quem não tem formação sobre séries de TV, a minha recomendação é estudar. Fazendo cursos, ou formação em audiovisual. Quem é jovem ainda pode fazer uma faculdade de cinema, audiovisual ou Rádio e TV. Quem já é formado em outras áreas, pode fazer uma pós-graduação, por exemplo. De forma geral, estudar. Além de um estudo formal, praticar muito e entender quais são as especificidades de escrever roteiro de dramaturgia e, principalmente, roteiros de dramaturgia de séries. Pensando que nem todas as ideias vingam, quais seriam os pontos que temos que colocar à prova uma ideia para saber se ela é boa para ser desenvolvida como roteiros audiovisuais? J: O primeiro entendimento que você tem que ter sobre uma idéia é o tamanho dela. Se essa ideia pode ser um curta metragem, um longa metragem, uma mini-série, uma série ou uma novela. Existem diferentes tamanhos de dramaturgia, tipos de história que se fecham muito rapidamente ou são muito sutis (o que seria um curta), ou histórias que são maiores, mas com começo, meio e fim (um longa metragem) e as séries, que são dramaturgias abertas, assim como as novelas. Tudo depende de quantos personagens e plots você vai ter. Então, existem tamanhos de ideias diferentes. Nos projetos que eu desenvolvo, eu foco muito em entender tematicamente a série e no desenvolvimento dos personagens – se eles podem render muitas histórias. O conflito precisa se sustentar ao longo de uma temporada, de 7 a 13 episódios, aproximadamente, ou mais. Qual a importância de definir um público alvo para uma produção audiovisual? Como um iniciante pode ter certeza que sua ideia dialoga com seu público? J: Eu acredito que definir um público é fundamental, mas não necessariamente você precisa criar para um público. Tudo depende de como o autor ou autora se inspira para criar ideias. Existem pessoas que se dão muito bem em pegar uma tendência do mercado ou um gênero que está em nascimento e criar uma ideia a partir daí, atendendo a um briefing. Notando, por exemplo, que faltam séries para um determinado público e a pessoa gosta de escrever para este público ou ainda, recebe a encomenda de um produtor que quer explorar um determinado universo para um público específico. Porém, também existem pessoas que não se motivam com isso. Para estas pessoas, acho que devem criar seus universos e projetos próprios, depois entender para qual público é e como adaptar o projeto para dialogar melhor com este público. De qualquer forma, o principal é que o autor ou autora se inspirem pela sua ideia, sentindo que esta ideia expressa algo para ele(a). Comento sempre com meus alunos que a criação de séries é algo profundamente autoral. Lógico que no desenvolvimento da série, quando ela está no canal, o projeto passa a ser mais “industrial”. Mas a semente deste projeto tem de ser autoral e significar muito para o autor(a) – que provavelmente vai estar liderando a sala de roteiro ou fazendo uma direção criativa, de alguma forma. A questão do público alvo é muito importante, mas não necessariamente ela é definidora de um projeto. Mesmo que ela não tenha sido a inspiração para um projeto, vai ser sempre importante para determinar o canal e que tipo de série irá se desenvolver; mas existem estas duas maneiras diferentes de criar. Após os primeiros passos, o que um iniciante no mercado audiovisual pode esperar do desenvolvimento de seu projeto? Como se preparar para o longo caminho até as telas? J: Aquele que desenvolver o seu projeto, eu acredito, também deve praticar a escrita de roteiro e se envolver com outros projetos, criando novos contatos. Falar com produtores, players, ir a encontros e rodadas de negócios que existem em festivais é muito importante; circulando e mostrando seu trabalho. Isso porque quando você apresenta um projeto de série, não se está apenas apresentando o projeto, mas também se apresentando. Mostrando seu trabalho e seu portfólio para possíveis parceiros de trabalho. O projeto da série “3%” demorou mais de cinco anos para ser fechado, entre filmar o piloto e vender para a Netflix, considerando que entre o piloto e a estreia no streaming foram 7 anos. 7 anos de “não”. Receber “não” faz parte, são muito mais “não” que “sim” que temos na nossa carreira! Por isso a resiliência também é muito importante, pois enquanto não temos nosso projeto rolando é preciso criar relacionamentos no mercado, apresentar o trabalho, praticar, trabalhar na sala de roteiro de outros projetos e com outros roteiristas. Se
Pensando a Bioeconomia da Amazônia
No dia 07 de abril promovemos o 1º Encontro do Hub Bioeconomia Amazônica do CIVI-CO. A reunião aconteceu de forma virtual e contou com a presença de representantes de grupos ativos na bioeconomia, investidores e fomentadores desse modelo sustentável. As ações do hub são coordenadas por Iara Vicente, fundadora da consultoria Nossa Terra Firme e integrante da Comunidade CIVI-CO. No mês que é lembrado pela luta dos direitos indígenas, principalmente pelo direito de posse e preservação das terras, e que também coincide com um momento crucial de resistência contra a invasão de garimpeiros na Amazônia. O nosso Hub Bioeconomia se propõe a ouvir e dar protagonismo às comunidades que vivem e preservam esses espaços. “Esse é um momento de união. A gente precisa ver essas redes funcionando na prática, para que os poucos recursos disponíveis para construir uma economia sustentável, vibrante na Amazônia, sejam bem aproveitados e cheguem a quem tem que chegar”, pontuou Iara Vicente. Soluções existentes A implantação de projetos em agroecologia, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável é muito importante para a conservação do território e geração de emprego e renda dessas comunidades, como destacou Jaqueline Pereira, representante do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon): “Nós trabalhamos com áreas protegidas que inclui áreas de conservação, territórios quilombolas e indígenas em um grande bloco de 22 hectares, trabalhamos além da gestão, a questão das cadeias produtivas, coisa que tem a ver com a bioeconomia, trabalhamos com Copaíba, castanha, andiroba, cumaru e até o turismo”. Ponto de partida Porém, esta é uma luta que vai muito além do cultivo sustentável, como ressaltou Antonieta Luisa, presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (IMUNE): “Precisamos voltar a discutir essa questão da Amazônia, mas principalmente resgatar a nossa identidade quanto povos e quanto florestas. Nas nossas visitas às comunidades Quilombolas, comunidades rurais e ribeirinhas, o que nós temos percebido e escutado é sobre a falta de apoio para a permanência desses povos nesses espaços. Infelizmente, muitas das pessoas que estão ali, estão desempregadas”. Carina Pimenta, representante da Conexsus, falou da importância de se construir pontes entre os moradores dessas comunidades e investidores, com o objetivo de assegurar uma vida digna para essas pessoas: “Há muita discussão acerca do termo bioeconomia, e eu acho válida. Nós entendemos que é uma sociobioeconomia, porque a economia só faz sentido na Amazônia se ela for beneficiar as populações que lá vivem e protegem florestas. Então essa é uma disputa de conceitos que vale a pena ser debatida, pra gente entender do que estamos falando”. Próximos encontros O Hub Bioeconomia Amazônica pretende continuar ativando ações permanentes sobre o tema, ouvindo e ajudando a transformar esses espaços de pensamento. Durante a roda de conversa foram levantados diversos pontos para que possamos, juntos, construir soluções a partir das demandas identificadas. “Essa foi a primeira oportunidade para todos se conhecerem e abrirem as portas para novos encontros, até mesmo presenciais, quando possíveis, com o objetivo de encontrar soluções para a bioeconomia da Amazônia. Temos uma meta de promover ações contínuas ao longo dos próximos meses, e não de apenas um dia”, pontuou Pedro Jangada, community manager do CIVI-CO e mediador da conversa.
Banho zero plástico: cuide de você e do planeta ao mesmo tempo!
Existem muitas formas de cuidar do planeta e o seu banho é uma delas! Sabia que dá pra pensar em um banho zero plástico, e de quebra ainda escolher produtos que não poluem as nossas águas quando escoam pelo ralo? Neste post, você vai descobrir como a positiv.a cria soluções para você, para a sua casa e para a natureza. Boa leitura! Banho zero plástico: 3 trocas positivas para você fazer agora! Provavelmente, você já deve ter ouvido falar sobre economizar água do banho, ajustar a temperatura e dicas sempre relacionadas à água. Essas dicas são valiosas, mas você já parou para pensar que os elementos do seu banheiro podem ser muito nocivos para a sua saúde e para o planeta? Portanto, com as dicas abaixo, você verá como é possível repensar o seu banho e garantir saúde, bem-estar, economia a médio e longo prazo e um planeta sem plástico! 1. Esponja não é a mesma coisa que bucha vegetal As esponjas de banho que compramos no mercado e na farmácia são plástico puro! Além de não limparem a nossa pele e esfoliarem como deveriam, elas ainda ficam no planeta por centenas de anos, já que a sua reciclagem é muito complexa. Você pode trocar essas esponjas por buchas vegetais. Elas são compostáveis, feitas de uma planta, duram muito mais tempo que uma esponja sintética e cumprem o seu papel! 2. Shampoo líquido é coisa do passado O principal ingrediente de um shampoo líquido é – pasmem – água! E ela só serve para aumentar rendimento e diluir o produto. A grande verdade é que um shampoo não precisa de água para ter uma boa performance. Por isso, aposte em shampoo em barra! Ele pode durar até 3x mais que um shampoo líquido, garante uma limpeza eficiente e não gasta o recurso mais valioso do nosso planeta. 3. Sabonete vegetal é a melhor opção para o seu corpo Chega de sabonetes com lauril, espumantes sintéticos e fragrâncias artificiais que podem causar alergias em você! Apostando em sabonetes vegetais, você garante um verdadeiro banho de natureza. Os sabonetes da positiv.a, por exemplo, são feitos de manteiga de cupuaçu, óleo de gergelim e óleos essenciais de verdade. A espuma cremosa é natural, não agride o seu corpo e nem vai poluir as nossas águas. Agora que você já sabe quais são as melhores opções para ter um banho zero plástico, que tal começar a fazer trocas positiv.as hoje mesmo? Deixe nos comentários qual será o seu primeiro passo!
Seja o Empreendedor Social do Ano
Você é empreendedor socioambiental? Atuou com inovações e soluções durante a pandemia? Então queremos te convidar para um game de impacto. E aí, topa? O principal concurso de empreendedorismo socioambiental da América Latina está com inscrições abertas. Em sua 18ª edição, o Prêmio Empreendedor Social do Ano 2022 – Lições e Desafios da Era Covid coloca suas lentes em problemas brasileiros aprofundados durante a pandemia. Descubra aqui se você pode participar, tire suas dúvidas e fique atento(a) aos prazos. As inscrições começaram no dia 23 de março e seguem abertas até 10 de maio. Este ano, o prêmio terá quatro categorias: Destaques na Pandemia, Inovação para Retomada, Direitos Humanos e Soluções Comunitárias. O concurso busca soluções inovadoras para mitigar os impactos negativos da pandemia, mas também mira na retomada econômica e na problemática socioambiental, observando o aumento da desigualdade e das ameaças ao meio ambiente e aos direitos humanos. Agora que você já sabe se pode participar, veja como se inscrever! As inscrições são feitas na plataforma Prosas, e você pode acessá-la através da página oficial do concurso no site da Folha. O prêmio elegerá 12 finalistas nas quatro categorias, entre os quais o júri definirá os vencedores de cada uma delas. Todos os finalistas concorrem ao Troféu Escolha do Leitor, categoria popular que elege a iniciativa de maior destaque na opinião do público e do leitorado da Folha. Premiação Os premiados ganham projeção nacional e internacional, reforçada pelo alto nível de qualificação e networking oferecidos por um núcleo de 28 parceiros, em um pacote de benefícios que soma mais de R$ 400 mil, entre cursos e mentorias: Bolsas de estudo em instituições como Harvard, Fundação Dom Cabral e ESPM Participação em fóruns nacionais e internacionais, promovidos por Idis, Social Good, Gife e ICE Fast-track para fazer parte de redes como Ashoka e Sistema B Consultoria jurídica pela SBSA Advogados Programas de aceleração e mentoria oferecidos por Artemisia, Quintessa, Din4mo, Yunus Negócios Sociais Visibilidade em todas as plataformas da Folha Entenda as categorias Destaques da Pandemia Iniciativas de impacto e escala na resposta à Covid-19 no país. Soluções em saúde, na crise hospitalar e vacinas, e também nas emergências. Semifinalistas das edições especiais podem participar com dados atualizados e avaliação de impacto. Inovação para Retomada Voltada para soluções inovadoras em saúde, habitação e geração de renda. Ações em biomas ameaçados como Amazônia, Pantanal e Cerrado. Uso de tecnologia para ampliar impacto deve ser um diferencial. Direitos Humanos Iniciativas que fazem a diferença no combate a racismo, violência e desigualdade de raça e gênero e também aquelas que atuam para fortalecimento da democracia e combate à desinformação. Soluções Comunitárias Exemplos de resiliência, inovação e saídas disruptivas em territórios periféricos. Voltada para iniciativas que mobilizaram até R$ 500 mil no último ano. O CIVI-CO é parceiro do Prêmio Empreendedor Social do Ano e apoia os negócios de impacto socioambientais do concurso, oferecendo mentorias e divulgação dos projetos e iniciativas para os finalistas. Além disso, recebemos em nossa Comunidade alguns vencedores do concurso, como a Florescer Brasil, que em 2020 conquistou o prêmio na categoria “Mitigação da Covid-19”. Então, se você é um(a) empreendedor(a) de impacto que está buscando pelo reconhecimento do seu negócio, não perca esta chance e se inscreva agora!
Como o agro se beneficia do desmatamento?
Por Jaqueline Ferreira* O desmate foi um elemento estruturante de consolidação da nossa economia agroexportadora no século passado e continua sendo prática corrente para expansão da fronteira agrícola nos dias de hoje A ministra Tereza Cristina já afirmou que não é mais necessário desmatar para produzir, assim como fizeram outros que ocuparam a pasta. Muitas lideranças do setor agropecuário dizem não ter nenhuma relação com o desmatamento e a expansão da fronteira agrícola porque não estão com a motosserra na mão. “É preciso prender quem desmata”, “é preciso coibir a grilagem de terras”, “nós seguimos o Código Florestal”, “se 90% do desmatamento é ilegal, bastaria aplicar a lei que tudo estaria resolvido”, afirmam. O que se omite nessa narrativa é que o destino da terra desmatada, legal ou ilegalmente, é o mercado de terras. Terra é um insumo fundamental para a produção agropecuária. E no caso do Brasil, a disponibilidade desse insumo parece não ter fim. Entre 1985 e 2020, desde o início do monitoramento sistemático do uso da terra no país, 82 milhões de hectares de vegetação nativa foram ao chão. No mesmo período, a área ocupada pela agropecuária teve um incremento total de 81 milhões de hectares. Não faltam evidências sobre o que vem acontecendo com as áreas desmatadas: viram pasto e área de cultivo agrícola. O desmatamento foi um elemento estruturante de consolidação da nossa economia agroexportadora no século passado e continua sendo prática corrente para expansão da fronteira agrícola nos dias de hoje. Mesmo em 2012, ano que registrou menores taxas de desmatamento, nós perdemos 4,6 mil km² de florestas nativas na Amazônia. Não é pouco. A expansão de área cultivada é uma estratégia do agronegócio brasileiro para aumentar sua produção e competitividade. Os cultivos mais modernos, que usam de alta tecnologia para produzir mais por hectare, como é o caso da soja, também apresentam tendência crescente de aumento da área cultivada. O estudo do Instituto Escolhas, Como o Agro se beneficia do desmatamento?, lançado na quinta-feira (17/02), traz dados relevantes para entendermos melhor esse imbricamento do setor com o desmatamento. Ao analisar o efeito econômico dessa prática sobre o preço da terra e dos produtos agropecuários, o estudo revela que o desmatamento ocorrido entre 2011 e 2014 desvalorizou o estoque de terra de 93,5% dos municípios brasileiros. Se ele não tivesse ocorrido, elas valeriam R$ 136,7 bilhões a mais em 2017. A depreciação foi maior nos municípios onde a fronteira agrícola expandiu, localizados em sua maioria na Amazônia Legal e na região conhecida como Matopiba – fronteiriça entre o Mato Grosso, Tocantins, Piauí e Bahia –, onde a depreciação do valor do estoque de terra chegou a 25%, o que soma mais de R$ 83 bilhões. 50% de toda a desvalorização da terra observada no país está concentrada em 61 municípios com esse perfil. O valor do hectare de terra em São Félix do Xingu, no Pará, município com maior depreciação verificada, foi de R$ 2.476 em 2017. Sem o desmatamento dos anos anteriores, o preço teria chegado a R$ 6.606 por hectare. O desconto significativo de R$ 4.130 por hectare beneficiou o produtor desse município que expandiu sua área de cultivo, mesmo que ele não tenha derrubado uma só árvore. O efeito também é sentido no preço das commodities, cujo principal produto afetado é a soja. O desmatamento provocou redução de R$ 3,10 no preço médio da saca de 60kg, o que se percebe de maneira mais intensa, mais uma vez, nos municípios em expansão da fronteira agrícola. Preços mais baixos de terra e de commodities trazem maior competitividade para o setor. O que o estudo mostra é que o desmatamento torna mais barato para o Brasil cumprir sua grande vocação na visão do agronegócio: fornecer soja e carne para o mundo. Entretanto, fica mais barato para uns produtores do que para outros, prejudica aqueles que não podem expandir sua área de cultivo e deprecia o ativo terra do país como um todo. A conta desastrosa nem leva em consideração a perda da biodiversidade e o agravamento da crise climática, que já prejudica a própria produção agropecuária. Também não considera que fatores de produtividade, como acesso a orientação técnica e infraestrutura, trazem ganhos muito maiores de competitividade do que o desmatamento pode trazer, conforme mostrou o estudo. Será mesmo que, para acabar com o desmatamento, basta aplicar a legislação existente? Enquanto o setor mais promissor do país, com grande representação nos poderes executivo e legislativo, não abandonar a lógica de operação que consiste em expansão de área, o problema vai continuar. Atos oficiais de regulação fundiária que premiam quem desmata e disponibilizam a entrada de novas áreas no mercado de terra precisam cessar. E se é o bolso que fala mais alto na hora de expandir a área cultivada, é pelo bolso que vamos conseguir constranger o setor a mudar. Já passou da hora de clientes e financiadores exigirem o fim do desmatamento nas cadeias produtivas do agronegócio brasileiro. Assim como, os inúmeros instrumentos de financiamento público – crédito, anistia de dívida, isenção fiscal, entre outros – precisam parar de beneficiar o produtor que desmata e seus compradores. *Jaqueline Ferreira é gerente de Portfólio do Instituto Escolhas
5 aprendizados do novo relatório climático da ONU
Extra, extra! Saiu o novo relatório climático da ONU, documento produzido por 270 cientistas de 67 países e que é um registro histórico de como o mundo está falhando em conter a crise climática. Na apresentação realizada no dia 04 de abril, mais uma vez fomos alertados que nosso tempo está acabando e as mudanças climáticas são quase irreversíveis. E agora quem poderá nos ajudar? A atual edição do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) focou nos impactos socioeconômicos das mudanças climáticas, na vulnerabilidade dos países mais pobres e na necessária adaptação de todos a essa nova realidade. Segundo o relatório, apontando para um futuro distópico no melhor estilo Blade Runner, ainda é possível salvar o planeta. Basta ficar atento aos sintomas e tentar diminuir os impactos negativos gerados principalmente pelas nações mais ricas. Porém, todos devemos medir esforços para frear esses avanços. Por isso, separamos 5 pontos para olharmos com atenção nesse novo relatório: O início do fim De acordo com o IPCC, as emissões globais de carbono em 2019 foram cerca de 12% maiores que em 2010 e 64% mais altas que em 1990. Definitivamente, não estamos no caminho para limitar o aquecimento global em 1,5ºC. Um cenário de aumento da temperatura global – entre 1,5ºC e 3ºC até 2050 – deixará cerca de 4 bilhões de pessoas na linha de “altamente expostas às mudanças climáticas”. Espécies ameaçadas O relatório mostra que eventos climáticos não comuns já estão acontecendo por conta das mudanças climáticas, como enchentes e ondas de calor. Essas alterações já estão atingindo os seres humanos e outras espécies de forma muito mais dura. Estima-se que até 2050 as mudanças podem gerar a extinção de até um milhão de espécies de plantas e animais. Nas regiões onde a diversidade de ecossistemas é maior, a vulnerabilidade também é maior. É o caso da América do Sul e Central, sul da Ásia, a maior parte do continente africano e países insulares, situação agravada pela pobreza e meios de subsistência muito dependentes de recursos naturais, tais como a agricultura, a criação de animais e a pesca. Doenças No cenário descrito pelo estudo do IPCC, no futuro, doenças se espalharão mais rapidamente, como já vimos com o Coronavírus. Existe um risco específico de que condições climáticas em transformação irão facilitar a disseminação de outras epidemias, a exemplo da dengue, cólera, ebola e febre amarela. Além do impacto na saúde física, o relatório ressalta que as mudanças climáticas podem estar agravando problemas de saúde mental, incluindo o estresse e o trauma relacionado com eventos climáticos extremos e a perda de condições de vida e cultura. Racismo Climático O IPCC diz que tanto os seres humanos quanto a natureza em geral estão sendo pressionados além de sua capacidade de adaptação. Segundo dados do estudo, mais de 40% da população mundial é “altamente vulnerável” ao estado do clima. Então, adivinhem quem são as pessoas mais vulneráveis? Justamente as pessoas que menos contribuem para a elevação climática. Até 2019,os países mais pobres do mundo e as nações-ilhas foram responsáveis por apenas 4% das emissões de gases causadores do efeito estufa. Aqui na América Latina somos responsáveis por 3% das emissões, mesmo índice do continente africano. Pequena chance Ainda existe esperança! Se o aumento em temperaturas for mantido abaixo de 1,5 grau Celsius acima dos níveis da era pré-industrial, as perdas projetadas atualmente podem ser reduzidas. Além do pouco tempo para implementar novas tecnologias de energia renovável e de captura de CO2 da atmosfera (ainda pouco utilizada e em desenvolvimento), o relatório conclui também ser urgente descontinuar projetos de energias nocivas para o planeta. O carvão deve ser reduzido em 95% até 2050. Da mesma forma, o petróleo deve cair em 60% e o gás natural em 45% no mesmo período. Para reduzir as emissões globais em 43% até 2030 seria necessário um esforço coletivo mundial para investir em energias renováveis e compartilhamento tecnológico dos países desenvolvidos aos países do sul global. Você acredita que ainda temos tempo? Será que as nações mais ricas irão se solidarizar com a causa? Será que o lucro irá se transformar em uma nova economia, mais sustentável e inclusiva? Se alguém aí conseguiu viajar até 2030 e voltou, conta pra gente! [:]