Conseguimos e não paramos por aqui
Por Adriana Barbosa* É sempre muito gratificante contar a minha história e a da Feira Preta e ao longo de todo esse tempo, são mais de 20 anos, vejo que não consigo – e nem quero! – dissociá-las. A Feira cresceu, chegou em lugares inimagináveis, contou a história de milhares de afroempreendedores, inclusive a minha, ano após ano. Se tornou algo muito além do que eu imaginei, se tornou uma cadeia especializada, potente e acima de tudo, humanizada, o maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. Devo dizer, que assim como ela, a Adriana, que começou na pura sevirologia, lá atrás, com tantas inseguranças, mas com muita sagacidade e uma vontade enorme de mudar a rota, cresceu também. Me desafiei, celebrei, chorei e fiz parte de muitas realizações, por causa do meu propósito e pelo meu propósito. A Feira nasceu por um incômodo, pela falta de oportunidades e pela falta de um olhar para a população preta como produtora de conhecimento, de criatividade, de soluções que fazem a diferença. E tem sido uma jornada incrível, ainda que com as adversidades, pautar o quanto somos gigantes e estamos na linha de frente quando o assunto é inovar, ainda que seja difícil para muitos enxergar a nós, pessoas pretas, neste papel. Estamos constantemente nos reinventando, na escassez e na bonança. Inclusive, ressalto, que essa inovação não é de hoje, é algo que permeia nossa existência como povo. Nesta jornada que é empreender, contei com inúmeros pares, parceiros, amigos e familiares. Resgato a minha parceira Deise, que esteve comigo, quando a Feira era ainda um sonho; a minha bisavó, avó e mãe que são as minhas referências de liderança, de mulher empreendedora, que sempre tinham um plano nas mangas, disruptivas desde sempre. Enquanto ancestral em vida, me sinto honrada em carregar esses ensinamentos e passá-los adiante para milhares de pessoas, começando pelos os meus, porque eu sei, que, mesmo que indiretamente, o impacto da Feira reverbera em outros lugares. Sinal de que a semente da reflexão sobre os nossos corpos, foi plantada e está germinando O simbolismo que a Feira Preta exerce é isso, para além da inventividade e criatividade da negritude, nas mais diversas áreas, é a importância do coletivo, da rede de apoio e no papel que ele exerce em nossas construções diárias, nas vitórias coletivas. Eu sou a representação dos meus ancestrais, já a Feira Preta é uma pequena África, de braços abertos para acolher aqueles que têm o DNA da criação e do empreender, que se esbarra na sobrevivência por muitas vezes, mas que se estrutura no alto potencial de ser um líder, no empreendedorismo e na vida. Não era a intenção, mas vejo, que essas palavras podem ser uma carta aberta para aquela jovem menina mulher dos anos 2000 que eu fui. Assim, finalizo dizendo: “Conseguimos e não paramos por aqui”. *Idealizadora da Feira Preta e CEO da PretaHub.
Como conseguir Captação e Investimento para seu negócio?
Apenas 44% dos negócios de impacto do Brasil já utilizaram algum tipo de doações ou investimentos. Esse dado é uma informação extraída do Mapa de Negócios de Impacto, estudo da da Pipe.Social que analisou um total de 1.272 negócios de impacto operacionais no país. A falta de recursos financeiros é uma das principais dificuldades para a manutenção desses negócios. O estudo aponta que a maior parte deles ainda é recente (60% tem até cinco anos de existência) e está nos estágios iniciais de desenvolvimento. Desafios Existe uma visível dificuldade por parte do ecossistema de impacto no Brasil em questões básicas como se estruturar enquanto negócio e, consequentemente, conseguir captar recursos, como alertou Rodrigo Alvarez, sócio diretor da Mobiliza Consultoria: “É pensar o que faz a sua iniciativa e a partir daí pensar em quem são possíveis investidores e estruturar essa identidade organizacional é um dos maiores desafios de qualquer investidor, saber impactar é uma das perguntas mais importantes que temos que fazer.” Sabendo disso, na última sexta-feira (24), CIVI-CO promoveu o “Meetup CIVI-CO”, um encontro com organizações que atuam em diversas áreas de captação: recursos filantrópicos ou incentivos fiscais para ONGs, viabilização de créditos, de investimento ou crowdfunding para negócios de impacto. O ecossistema de impacto no Brasil é composto por iniciativas, organizações e negócios que atuam com impacto socioambiental através de diferentes modelos de gestão, mas invariavelmente a captação de recursos ou investimentos é um tema de grande relevância para todes. Formação e aprendizado O “Meetup CIVI-CO” foi um dia de imersão em nossa Comunidade. Mais de 60 pessoas inscritas participaram de forma presencial e digital, aprendendo e trocando informações sobre captação de recursos e investimentos. Na parte da manhã aconteceu o painel com membros e parceiros da Comunidade CIVI-CO que são referências no assunto, com participação de CESAR, DIVI-Hub, Estímulo 2020, Investe Favela, Kyvo, Mobiliza Consultoria, Ponteia e Sitawi. À tarde ocorreram as mentorias específicas, momentos de aprofundamento com os parceiros mentores que tiraram dúvidas e deram dicas para os participantes. Como aconteceu com o Cícero Alves, fundador do Instituto Fênix (PE), membro digital da Comunidade CIVI-CO, que viajou para participar presencialmente do evento: “Foi uma experiência enriquecedora, onde aprendi muito com diversos profissionais da área de captação. Acredito que esse conhecimento vai somar nos meus projetos futuros”. Conectando causas O evento foi idealizado para promover conexões e compartilhamentos. Na programação houveram intervalos dedicados ao networking entre parceiros(as) e membros da Comunidade CIVI-CO e convidados(as) do ecossistema de impacto socioambiental – rolou até uma cervejinha no final! Além de todo o conteúdo, a programação contou com o “Almoço de Impacto” preparado pela chef Thayná Negreiros, fundadora da Alimento, e com a feira de artesanatos organizada pela Compre de uma Mãe Preta. Ambas organizações são negócios de afroempreendedorismo. Confira um pouco do que rolou neste dia!
Construindo uma educação antirracista
Por Janine Rodrigues* O sankofa, ideograma adinkra dos povos acã (África Ocidental), é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás, corpo virado para frente e um ovo em seu bico. Os povos originários nos ensinam a compreender que é imprescindível retornar ao passado para ressignificar o presente e construir um futuro mais justo e equânime É assim quando olhamos para as crianças e pensamos quase imediatamente que elas são o futuro do planeta. Lembro-me de uma conversa com o querido Daniel Munduruku, onde ele dizia: ”Cada pessoa, em cada fase da vida, é o melhor que ela pode ser. Pensamos nas fases da vida como as estações do ano. Primavera, verão, outono e inverno não são mais importantes que os outros. Cada fase, cada ciclo é o melhor que pode ser”. Ciclos se abrem e se encerram. E analisando o sankofa, e tudo que aprendemos com os povos Mundurukus, acredito que o futuro é agora. Lembro-me também de uma frase do querido Fernando Baniwa, que me disse recentemente numa tarde de estudos: “o futuro é o passado mais recente”. Só é possível pensar no futuro se nossos incômodos e nossas pendências de hoje forem reconhecidas e enfrentadas como sendo um compromisso de todos e todas. Enquanto os grupos minorizados (pessoas negras, povos indígenas, mulheres, comunidade LGBTQIAP+, dentre outros), exterminados e privados de saúde em todos os sentidos forem os únicos a se manterem na linha de frente desta batalha, e os principais interessados em políticas públicas que garantam seus direitos, não há futuro. E não haverá futuro porque não há vida agora. Há sobrevida. Então, quais reflexões podemos fazer para transformar essa perspectiva? Retornar ao passado: Qual foi nossa verdadeira história? Quais batalhas perdemos? Quais vencemos? Quem foram os verdadeiros heróis? E quem foram os verdadeiros vilões? Ressignificar o presente: Sabendo então qual foi o passado, quais ações e escolhas faremos hoje? Qual nosso lugar de luta, de fala, de decisão hoje? Construir o futuro: O que eu vejo? Onde eu me vejo? E onde eu me vejo, eu consigo te enxergar também? No meu futuro promissor cabe você? No seu futuro promissor, caibo eu? Jogo da Lei 10.639 Parceria entre a Piraporiando e o Porvir, o Jogo da Lei 10.639 é voltado para apoiar professores e professoras a refletir sobre suas práticas e criar projetos de educação antirracista em suas escolas. “Implementar a Lei 10.639 ajuda a diminuir o impacto do racismo institucional. Isso não é só responsabilidade dos educadores negros e das crianças negras. É um desafio para toda a escola. É preciso o coletivo”, defende Jenniffer Cornélio, pedagoga e integrante do educativo da Piraporiando. Legenda: Jenniffer, Tatiana e Janine no lançamento do Jogo da Lei no auditório do CIVI-CO. Crédito: Vinicius de Oliveira/Porvir “Um projeto antirracista não acontece só em um lugar, ele deve permear todos os espaços. O Jogo é um material voltado aos educadores, não necessariamente para aplicar com os estudantes. Ele pode ser usado para pensar qualquer espaço da escola”, afirma Tatiana Klix, diretora do Porvir. O tabuleiro do Jogo da Lei 10.639 está disponível para download gratuito. Baixe o jogo *Educadora, escritora e fundadora da Piraporiando.
Chegadas e partidas de Mulheres Refugiadas
Um olhar sensível sobre histórias marcantes. Mulheres que tiveram que romper fronteiras e enfrentar trajetórias internas e externas de superações, compartilham suas experiências e constroem um novo caminho para redescobrir sua feminilidade em situação de refúgio. “Refugiadas” é um curta-metragem produzido em colaboração entre o CIVI-CO e a ONG Estou Refugiado, que relata as vivências de 5 mulheres refugiadas no Brasil. O vídeo se propõe a ser um elo de esperança entre pessoas refugiadas, não só em outros países, mas também dentro de si. Leia: É preciso ouvir as mulheres Essas mulheres encontraram acolhimento em um novo país e estão confrontando as barreiras do tempo – entre o passado e presente. Durante a jornada, elas têm a chance de se reconectarem com o feminino, que por muitas vezes lhes foi negado e subjugado. Assista agora! Eternizando memórias Histórias como a de Lara Lopes (@lopes_maysha), mulher LGBTQIA+, moçambicana e refugiada no Brasil desde 2014. O relato dela se junta à de outras 3 mulheres no primeiro livro da coleção “Estou Refugiado” e tem tudo para emocionar e chamar, ainda mais, a atenção para esta causa. O vídeo Refugiadas também é um prenúncio desse material do livro, que traz depoimentos emocionantes de como quatro mulheres, de diferentes nacionalidades, chegaram até o Brasil e sobre os desafios vividos por elas. Essas narrativas sobre liberdade, segurança e paz, além da superação da falta de direitos humanos básicos, foi conduzido por duas grandes jornalistas brasileiras: Consuelo Dieguez, Flávia Mantovani e pela fundadora da Estou Refugiado, Luciana Capobianco, co-autoras e organizadoras da publicação. Conheça a Estou Refugiado Em 2015, a Estou Refugiado nasceu da convicção de que a questão do refúgio estava envolta em uma densa nuvem de desinformação e preconceito. Era preciso tomar uma atitude para mudar esse cenário dando voz, visibilidade e dignidade a esses seres humanos que precisam do apoio e da compreensão de todes. Pouco tempo depois, em 2017, a Estou Refugiado criou uma “máquina de currículos” que chamou a atenção. Além de distribuir milhares de currículos, o totem interativo tem o objetivo de passar de forma bem impactante a mensagem contra o preconceito através de vídeos de refugiados. Em março de 2019, a “Estou Refugiado” se formalizou como uma Organização Não Governamental (ONG). Com direção de Luciana Capobianco e a colaboração de voluntários, profissionais de Recursos Humanos, psicólogos e comunicadores, a ONG tem como foco a inserção de refugiados no mercado de trabalho. Desde então, a Estou Refugiado integra a Comunidade CIVI-CO. Conheça as empresas que fazem parte do nosso ecossistema de impacto!
Escola de negócios da periferia para periferia
Por Jennifer Rodrigues & Luis Coelho* A “Empreende Aí” era apenas um blog para falar sobre as experiências de como ser empreendedor na periferia. Em 2015, fundamos o negócio de impacto social de mesmo nome, depois de assistir a uma palestra do Muhammad Yunus e entender que precisávamos fazer algo mais aprofundado. A partir daí começamos a estruturar a Empreende Aí enquanto escola de negócios, a primeira feita da periferia para a periferia, e que já capacitou milhares de empreendedores. Nosso foco é capacitar mulheres e homens afroempreendedores, bandeiras extremamente importantes para nós, visto que o corpo de sócios é formado por um homem negro e uma mulher. Ao capacitar afroempreendedores, percebemos que muitos deles estão criando negócios voltados para melhorar a vida da população negra, como faz o Diogo Bezerra com seus negócios voltados à educação, um na área de idiomas e outro na de tecnologia. Ou como faz a Michelle Fernandes que possui um dos maiores e-commerces do Brasil voltados para a moda afro, com venda de turbantes e acessórios, fortalecendo a moda e a cultura negra. Assim como também faz o Bruno Brigida do “Clube da Preta”, que criou um clube de assinatura para vender produtos de pequenos afroempreendedores para a população de classe média alta, fortalecendo a cultura preta em diversas camadas sociais e gerando renda para esses empreendedores. Formando potências A Empreende Aí possui programas de capacitação 100% online, 100% presencial e híbridos. Além disso, temos, em parceria com outras organizações, dois fundos de microcrédito com política de juros zero para poder colocar dinheiro na mão do empreendedor que está negativado, por exemplo. Gerenciamos quatro escritórios compartilhados de trabalho juntamente com a prefeitura de São Paulo, em regiões periféricas, onde oferecemos infraestrutura de trabalho, rede de conexões e capacitações todas as semanas, nos mais variados temas relacionados ao empreendedorismo e a geração de renda. Entendemos que o combate ao racismo precisa de várias frentes acontecendo simultaneamente: frentes políticas, econômicas, educacionais, culturais e muitas outras. Afinal, para combater o racismo precisamos de pessoas negras em posições de poder, e só conseguiremos isso buscando acesso às ferramentas de poder existentes. Por aqui, já sabemos que o dinheiro e o empoderamento econômico é uma dessas ferramentas, da qual buscamos compartilhar conhecimentos para que a população preta possa ter essa “arma” no dia a dia da luta antirracista. Possuir dinheiro individualmente não acaba com o racismo, mas é uma das ferramentas que precisamos acessar para promover justiça social. *Jennifer é psicóloga e Luis é administrador de empresas, ambos sócios-fundadores da Empreende Aí. Conheça a Empreende Aí
A importância de unir mulheres empreendedoras
“Nós transformamos o sistema, as mentes, a sociedade.” A fala de Patrícia Villela Marino, co-fundadora do CIVI-CO, sintetizou o poder transformador do feminino neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, em um evento sobre liderança e empreendedorismo feminino, produzido pela AngelUs Network e Mubius WomenTech Ventures e apoiado pelo CIVI-CO. Neste encontro foram compartilhadas experiências e vivências no campo do empreendedorismo, da vida pessoal e sobre a feminilidade em uma sociedade em transformação, que mesmo conquistando espaços ainda trava difíceis batalhas e retrocessos em uma cultura conservadora e patriarcal. Empoderamento O evento, que lotou o auditório do CIVI-CO, foi uma oportunidade especial de maximizar o empreendedorismo feminino e aprender com as narrativas de sucesso das mulheres que lideram a transformação no mundo corporativo. Além disso, as conexões feitas a partir desse encontro fortalecem ainda mais a rede de mulheres empreendedoras. A programação contou com rodas de conversa, painéis e uma rodada de pitch de empreendedoras, que apresentaram suas propostas e soluções para tornar o ecossistema do empreendedorismo no Brasil um ambiente mais igualitário. Alguns dos empreendimentos da Comunidade CIVI-CO, que são liderados e fundados por mulheres, apresentaram suas iniciativas e despertaram o interesse dos espectadores, sendo um palco repleto de oportunidades, a exemplo de: Burocras, Sensativa e Herself. “A gente precisa agora ser agentes da nossa própria virada, nos ambientes de negócios, nas nossas próprias vidas e na nossa sociedade.” Erlana Castro, professora da Fundação Dom Cabral, salientou que essa é a hora de mudanças e que as mulheres devem se preparar para serem protagonistas do futuro, onde estarão cada vez mais inseridas em espaços que historicamente foram negados a elas. De mãos dadas No painel “Desenvolvimento de Liderança Feminina por Elas e Eles” aconteceu um bate-papo entre Patrícia Villela Marino e Carlos Constantini, CEO Wealth Management & Services do Itaú Unibanco. Na conversa mediada por Claudia Colaferro, CEO e fundadora da AngelUs, ambos argumentaram como homens e mulheres podem ser aliados nessa evolução, valorizando o feminino e construindo caminhos para inclusão e equidade no meio corporativo. Leia: Homens podem combater o machismo no trabalho? Durante a conversa também foram apontados os desafios trilhados, principalmente para mulheres que ainda não possuem acessos às conquistas e lutam pelo básico – que é a sobrevivência. Constantine, com ampla experiência na inclusão em ambientes corporativos, ressaltou a importância da escuta e do aprendizado do homem nesse processo. “Com o passar do tempo passamos a aprender que não é necessário só mulheres se candidatando para vagas, mas também elas precisavam estar nas bancas avaliadoras, principalmente para criar laços com a entrevistada e gerar empatia e um contraponto entre os homens”, defendeu.
Passou da hora de controlar o garimpo na Amazônia
Por Larissa Rodrigues* Em janeiro, o Presidente Lula cancelou o Decreto 10.966/2022, do governo Bolsonaro, que criava um programa para incentivar os garimpos. O cancelamento foi uma correção importante do presidente Lula. Mas, ainda falta cancelar o que, de fato, aumentará a garimpagem na Amazônia: a 6ª rodada de disponibilidade de áreas lançada pela Agência Nacional de Mineração (ANM) em setembro de 2022. Mais do que um programa de incentivos, a rodada é uma medida concreta, pois autorizará novos garimpos. A rodada ofereceu 420 áreas para permissões de lavra garimpeira – que é a autorização para o funcionamento dos garimpos. As áreas somam quase 1 milhão de hectares e estão predominantemente na Amazônia, em locais sabidamente problemáticos em termos de ilegalidades nas operações e proximidade com Terras Indígenas e Unidades de Conservação, como, por exemplo, a região de Itaituba, no Pará. Das áreas oferecidas, 243 apresentaram interessados. No último dia 8 de março, o resultado foi homologado e os interessados puderam solicitar sua permissão de lavra para a agência. Mas, o verdadeiro resultado dessa rodada, será o aumento dos problemas associados à atividade garimpeira e que ficaram demonstrados com a tragédia humanitária do povo Yanomami. Hoje, a ANM não consegue garantir a fiscalização nem mesmo das áreas já autorizadas por ela. Muitas áreas são utilizadas para a fraude da “lavagem de ouro”, servindo para registrar o metal extraído ilegalmente das Terras Indígenas para que ele ganhe uma aparência de legalidade. Em outras áreas autorizadas a extração mineral acontece para além dos limites geográficos permitidos. Dados do Instituto Escolhas confirmam isso e mostram que do ouro vendido pelos garimpos para as empresas do sistema financeiro que podem comprá-lo, cerca de 90% possui indícios de ilegalidade. Hoje, dar novas autorizações para os garimpos significa aumentar o espaço para essas irregularidades. Além disso, no estado do Pará, sob o governo de Helder Barbalho, o licenciamento ambiental para garimpos passou a ser municipal. Isso aconteceu apesar dos impactos ambientais irem muito além da região dos municípios e do fato de que, como já divulgado pela mídia, prefeitos são incentivadores da garimpagem, o que inviabiliza o processo de licenciamento e a fiscalização. Para completar, lá atrás, em 2013, a Lei 12.844 criou um sistema de “boa-fé” para o comércio de ouro entre garimpos e empresas do sistema financeiro. Com ele, as empresas ficam protegidas, pois presume-se que suas operações são feitas de “boa-fé”, independentemente de onde veio o ouro. Essa falta de controles incentiva a atuação de organizações criminosas e o crescimento vertiginoso das áreas de garimpo. Dados do MapBiomas mostram que a área dedicada aos garimpos na Amazônia já é maior do que toda a área dedicada à mineração industrial no país. E dentro de Terras Indígenas, onde a mineração é ilegal, a área dos garimpos dobrou entre 2018 e 2021. Apesar do regime de permissão de lavra garimpeira ter sido concebido para operações rudimentares, em pequena escala, e, por isso, com condições de outorga facilitadas, isso não é o que ocorre na prática. Hoje, os garimpos contam com maquinário, logística e organização industrial e possuem conexões com empresas em todos os elos da cadeia, inclusive no exterior. Gerando riqueza apenas para alguns poucos, a garimpagem tem deixado um rastro de danos humanitários, ambientais e econômicos. As operações ocorrem sem estimativas do potencial mineral ou planos de aproveitamento econômico, sem garantias ambientais e sociais e marcadas pela invasão de áreas proibidas, como o território Yanomami. Para os minerais, que são bens da União, é imprescindível um plano de aproveitamento que beneficie o país e a sociedade, para que os ganhos da atividade superem suas perdas, que, no momento, são muitas e graves. Ao permitir a expansão dos garimpos, o país tem chancelado a escolha de explorar recursos minerais valiosos, como o ouro e a cassiterita, de modo pouco eficiente, tanto ambiental como economicamente. E cabe ao Ministério de Minas e Energia e à ANM organizar o setor considerando o interesse público. A realização da rodada pela ANM apenas confirma que o país não tem um plano coerente para o aproveitamento dos recursos minerais. Disponibilizando novas áreas para garimpos, sem controles e sem fiscalização, os esforços do governo para retirar os garimpeiros da Terra Indígena Yanomami, e de outros locais, não serão exitosos. A atividade ilegal deverá permanecer vantajosa e os invasores devem logo voltar. Diante da preocupante ocupação garimpeira na Amazônia, que opera em escala industrial, dos danos ambientais, sociais e econômicos, da ilegalidade e das dificuldades de fiscalização, é imprescindível que a ANM cancele a rodada e controle o setor, fazendo jus ao seu nome. Caso contrário, restará a pergunta se o que temos é uma agência que regula as atividades minerais ou simplesmente incentiva a garimpagem. Texto publicado originalmente no Jornal O Globo *Pesquisadora e Gerente de Portfólio do Instituto Escolhas.
Homens podem combater o machismo no trabalho?
O machismo é um problema frequente em diversas esferas da nossa sociedade, inclusive no ambiente de trabalho. Apesar de muitos avanços terem sido alcançados nas últimas décadas, ainda há muito a ser feito para garantir a igualdade de gênero no local de trabalho. Para mudanças significativas realmente acontecerem, os homens precisam ser atuantes nas relações de gênero, pois é um problema que impacta a vida de todos, inclusive as deles. É papel deles refletir sobre as ideias e comportamentos que geram a violência e, a partir daí, se transformar e engajar pelo exemplo. O que fazer? Nesse sentido, é importante que homens assumam um papel mais ativo na luta contra o machismo no ambiente de trabalho. Aqui estão 7 sugestões práticas de como eles podem ajudar: 1. Ouça e aprenda É importante que homens ouçam as experiências de mulheres no ambiente de trabalho e aprendam com elas. Isso pode incluir conversas informais, feedbacks ou até mesmo treinamentos sobre diversidade e inclusão. Ao ouvir e aprender, os homens podem entender melhor as barreiras que as mulheres enfrentam e como podem ajudá-las a superar tais obstáculos. O GLOSSÁRIO ANTIMACHISTA do Movimento Mulher 360 é uma ótima oportunidade de aprendizado! 2. Reconheça seus privilégios Homens, especialmente aqueles que ocupam posições de liderança, têm mais privilégios no ambiente de trabalho do que mulheres. É importante que reconheçam isso e usem sua posição para ampliar as vozes das mulheres e dar mais espaço para que sejam ouvidas e valorizadas. 3. Promova a equidade salarial Infelizmente, ainda há muitas disparidades salariais entre homens e mulheres no ambiente de trabalho. Homens podem ajudar a combater essa desigualdade exigindo que as empresas paguem salários justos e equitativos para todos os seus funcionários, independentemente do gênero. 4. Combata comportamentos machistas Todos os homens podem combater comportamentos machistas no ambiente de trabalho (e fora dele também!), como piadas ou comentários sexistas. Quando ouvem ou presenciam esse tipo de comportamento, devem chamar a atenção e deixar claro que não é aceitável. 5. Dê suporte Homens podem oferecer suporte emocional e profissional para as mulheres no ambiente de trabalho, especialmente aquelas que enfrentam discriminação ou assédio. Isso inclui oferecer ajuda em projetos, oferecer feedbacks construtivos ou mesmo ser um mentor/aliado em situações difíceis. 6. Amplie a diversidade Homens podem ajudar a ampliar a diversidade no ambiente de trabalho apoiando a contratação e promoção de mulheres e outros grupos sub-representados. Isso pode incluir fazer indicações para vagas, ajudar a recrutar em redes de contatos ou até mesmo ser um defensor da diversidade em reuniões e decisões importantes. 7. Desafie o status quo Homens podem desafiar o status quo no ambiente de trabalho questionando a falta de diversidade e de oportunidades para mulheres. Eles podem apontar a ausência de mulheres em cargos de liderança e lutar por mudanças positivas. Este é o caminho Toda transformação positiva na sociedade só acontece quando há engajamento de todos e todas. A equidade de gênero também é responsabilidade dos homens, que devem assumir urgentemente um papel mais ativo nessa luta. Assim, construiremos juntos um ambiente de trabalho mais justo e inclusivo, com oportunidades iguais para homens e mulheres.
A reinvenção da Imprensa Negra
Por Likam Kyanzaire* Depois do assassinato de George Floyd em 2020, Elinor Tatum, editora-chefe do New York Amsterdam News, o jornal negro mais antigo da cidade de Nova York, percebeu que era necessário adotar uma nova abordagem jornalística para a cobertura da violência e da discriminação generalizada sofrida pela comunidade negra. Tatum, terceira geração de jornalistas da família, queria que o jornalismo local produzido por negros fosse capaz de investigar injustiças sociais com mais rigor do que são investigadas pela imprensa tradicional. Em uma época em que as redações começam a desaparecer, dados recentes do centro de pesquisa americano Pew Research mostram que há um aumento na preferência do público por fontes de notícias online, incluindo as mídias sociais, que são usadas por mais de 66% dos adultos para se informar. No entanto, o jornalismo negro está perdendo terreno na transição digital. Mais que qualquer outro grupo racial dos Estados Unidos, os negros são os que mais optam por se informar fontes tradicionais, como estações de TV e jornais locais. Tatum entrou em contato com negros donos de outras empresas de mídia para buscar uma forma de garantir que a imprensa negra pudesse sobreviver e crescer diante desse novo quadro. Em 2020, 10 importantes publicações negras — New York Amsterdam News, Atlanta Voice, Houston Defender, Washington Informer, Dallas Weekly, St. Louis American, Michigan Chronicle, Afro, Seattle Medium e Sacramento Observer — se uniram para lançar o “Fundo para a Imprensa Negra”, um programa que apoia financeiramente veículos operados por e de propriedade de negros. O Fundo é administrado em parceria com a Local Media Foundation (LMF, na sigla em inglês), fundo filantrópico da organização sem fins lucrativos Local Media Association que ajuda empresas de mídia a manter sua estabilidade financeira nesse cenário de mudanças rápidas. O fundo permitiu a criação colaborativa da “Word In Black” (ou Palavra Negra), a primeira redação coletiva do país que divulga notícias por, para e sobre a comunidade negra. A plataforma online de mesmo nome é administrada editorialmente pelos 10 editores do coletivo. “Ainda há mais de 230 jornais cujos donos são negros no país”, observa o jornalista Nick Charles, ex-diretor-geral da Word In Black, e “o que a maioria precisa é de uma transição suave e eficiente para os produtos digitais”. Saiba mais sobre o Fundo no site da SSIR Brasil. Leia a matéria completa *Escritora e colaboradora da Stanford Social Innovation Review.
Temporais nos ensinam sobre crises climáticas
O aumento das temperaturas não só geram secas e escassez. Com o aquecimento do planeta, e consequentemente dos oceanos, fenômenos climáticos extremos devem ser cada vez mais frequentes e intensos. As chuvas no litoral norte paulista foram três vezes maiores do que o previsto e causaram 65 mortes em Ubatuba e São Sebastião, até o momento. De acordo com os especialistas, esses episódios em intervalos mais curtos de tempo estão relacionados com as interferências humanas no ambiente, como a liberação de gases de efeito estufa e de desmatamento das florestas. “Quando a temperatura do oceano passa dos 26ºC, 27ºC, a evaporação aumenta exponencialmente. E o vapor da água é o principal fator da formação das nuvens e das chuvas”, explica Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, em entrevista ao portal Terra. A elevação de temperatura do planeta também aumenta a concentração da umidade na atmosfera, e o vapor úmido serve como combustível para a ocorrência de chuvas. Esse fato aliado ao conceito de que as catástrofes climáticas é um fenômeno social, observamos como esses acontecimentos afetam geralmente as populações em vulnerabilidade. Catástrofe social A pobreza está presente em todos os lugares do planeta, mas existe um desequilíbrio nesses números. Há uma diferença geográfica, étnica e racial na distribuição das riquezas – e da falta dela também. E não precisa ir longe: uma breve volta na sua rua ou no seu bairro é suficiente para notar que a má distribuição de renda afeta as pessoas pretas mais severamente. “Imagina você acordar todos os dias tendo consciência que talvez não exista mais planeta e as pessoas que conhecemos, que a sua galera serão as primeiras a morrer. Quando a gente olha para as enchentes de Petrópolis, que resultou em 233 mortes, podemos ver que existe uma predominância na cor dessas pessoas e são as pessoas pretas”, desabafa Amanda Costa, militante climática e fundadora do Perifa Sustentável, no podcast Planeta CIVI-CO. Ouça mais dessa conversa! É um exercício de observação profunda – se for possível, use até uma lupa. O racismo é um problema estrutural e age em todas as camadas da sociedade. Além de impedir o acesso das pessoas aos bens materiais, ele também as privam de espaços e até da produção intelectual. Racismo ambiental Então podemos dizer que o racismo ambiental está atrelado a especificidades, como as que dizem respeito à origem geográfica, sociais e culturais dos indivíduos, pois os impactos climáticos têm cor, gênero e lugar. E em nossa sociedade, motivada pelas relações de consumo, as periferias e as populações tradicionais são as que menos consomem e as mais afetadas pelas consequências das alterações climáticas, que não priorizam o bem-estar dessas populações vulnerabilizadas. Como ajudar Faça sua parte para combater as crises climáticas diariamente. Se puder, doe para ajudar os acometidos pela tragédia no litoral norte paulista. Diversas ONGs e instituições estão se mobilizando para arrecadar e distribuir doações. Confira abaixo algumas dessas organizações e saiba como doar: Cruz Vermelha São Paulo (@cruzvermelhasaopaulo) Gerando Falcões (@gerandofalcoes) Instituto Conservação Costeira (@institutoconservacaocosteira) Instituto Verdescola (@institutoverdescola) Legião da Boa Vontade (@lbvbrasil) Projeto Recomeçar (@projetorecomecar.cs)