Mulheres, Talibã e o Totalitarismo

De acordo com a filósofa alemã, Hannah Arendt, “o terror e o medo são a espinha dorsal de regimes totalitários por todo o mundo”. Ao pensar nisso, é impossível não lembrarmos da crise humanitária que está se estabelecendo com a retomada do Afeganistão pelo Talibã. O grupo extremista assumiu o comando do país em meados de agosto, após 20 anos fora do poder por conta do domínio norte-americano, e anunciou que formará um novo governo ao conseguir o controle total do território afegão. Essa nova liderança ligou o alerta da população que é contrária ao grupo. Principalmente daqueles que estão em situação de risco, como é o caso das mulheres, que conquistaram direitos importantes no período de permanência das tropas dos EUA. As mulheres foram proibidas de trabalhar durante o primeiro controle do Talibã em 2001. Depois que os radicais islâmicos foram retirados do poder, as mulheres puderam frequentar universidades, ir ao trabalho e até dirigir. No início de 2021, as mulheres ocuparam 27% das cadeiras no Parlamento Nacional.   Foi no começo deste ano também, quando o Talibã, o governo afegão e os EUA iniciaram negociações de paz, que algumas mulheres exercendo suas profissões sofreram ameaças e ataques, incluindo o assassinato de três jornalistas em março.   O depoimento emocionante de Zarifa Ghafari, primeira prefeita eleita do Afeganistão (na cidade de Maidan Shahr), chamou a atenção do mundo para o retrocesso enfrentado pelas mulheres no país.   “Não tem ninguém que possa ajudar a mim ou minha família. Estou aqui sentada com minha família e meu marido. E eles vão vir atrás de pessoas como eu e me matarão. Não posso deixar minha família. Mas, para onde eu iria?”, contou Zarifa ao site britânico iNEWS. No último dia 04 de setembro, combatentes do Talibã interromperam com o uso da força bruta uma manifestação de mulheres na cidade de Cabul. Elas protestavam pela manutenção dos direitos depois que o grupo extremista tomou o Afeganistão. As mulheres presentes relataram que integrantes do Talibã as dispersaram com gás lacrimogêneo e spray de pimenta, enquanto caminhavam de uma ponte até o palácio presidencial. Números de uma guerra interminável   O Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos, da Universidade Brown (EUA), divulgou um relatório sobre a guerra ao terror dos Estados Unidos. A publicação contabilizou o número de mortes entre 480 mil e 507 mil, mas estima-se que esse dado seja provavelmente maior. O relatório também indica que entre 182 mil e 204 mil civis morreram no Iraque, 38 mil no Afeganistão e 23 mil no Paquistão. Cerca de 7 mil americanos morreram no Iraque e no Afeganistão. A guerra consumiu mais de 2 trilhões de dólares (ou 300 milhões por dia) e tirou a vida de 69 mil soldados afegãos, 48 mil civis e 51  mil combatentes extremistas. Uma amarga derrota para a humanidade A retirada das tropas norte-americanas decretam o final de uma era no Oriente Médio. Após quase duas décadas de intervencionismo, tentando combater principalmente os grupos terroristas na região. Este período histórico resultou na captura e morte de dois grandes líderes: Osama Bin Laden e Saddam Hussein. Porém, a imediata retomada do Talibã, mostra que as propostas de democratizar e libertar essas nações não foram alcançadas. O militarismo americano assegurou alguns direitos básicos enquanto esteve presente, mas os grupos extremistas mostraram que, mesmo dispersos, conseguiram ter uma organização imposta pela força, combatendo e dominando seus opositores. Retomando o pensamento de Arendt, mulher judia que fugiu do holocausto, ela descreve o totalitarismo como um governo sustentado, explicitamente, pelo extermínio de setores da população e não apenas na sua opressão ou instrumentalização. Esse padrão dos governos totalitários não diz respeito apenas à exclusão sócio-política, nem à eliminação do opositor ou inimigo, mas a atualização da lógica da descartabilidade humana inerente a essas formas de governo. Comprovamos isso com a atual situação das mulheres afegãs, que estão sendo totalmente descartadas e desumanizadas por esse regime. “Pensar e estar completamente vivo são a mesma coisa, e isto implica que o pensamento tem sempre que começar de novo. É uma atividade que acompanha a vida e tem a ver com conceitos como justiça, felicidade e virtude.” – Hannah Arendt, no livro “A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar”. Mesmo sendo um recorte específico é possível compreender como a sociedade está se comportando diante de situações caóticas por diversos locais do planeta. Entender esses processos também é uma forma de combater fenômenos como o nazismo, as grandes guerras, a desigualdade social e o recente levante fascista. “Estou destruída, mas não vou parar, mesmo que venham me buscar. Não tenho medo de morrer”, confidenciou Zarifa Ghafari que, mesmo sob ameaças, promete lutar por ela e por todas as mulheres afegãs, para assegurar os direitos conquistados.

ESG na prática, além da sigla

O tema ESG é cada vez mais presente no ambiente corporativo. Prova disso é que o termo esteve no topo de pesquisas no Google em 2020. Porém, é necessário saber onde acaba o discurso e começa a prática. Não basta apenas se intitular uma empresa ESG , é preciso mostrar serviço e principalmente exigir fiscalização e transparência. Boas práticas ambientais, sociais e de governança tornaram-se indicadores para agregar valor financeiro às empresas de capital aberto. Isso abriu os olhos do mercado e também dos consumidores, que passaram a cobrar um posicionamento das corporações.   Essas práticas são essenciais para o desenvolvimento de um capitalismo consciente, que siga os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).   Elas transformam o modelo forjado no lucro pelo lucro em um sistema com propósito que, por sua vez, está ligado a um capitalismo que não está focado só nos acionistas, e vai gerar valor para todos, colaboradores, sociedade, planeta. A importância do Capitalismo Consciente para as práticas ESG     Na prática, os conceitos do ESG não são tão simples como parecem. Por isso, é fundamental ter conhecimento de como eles podem ser aplicados na sua empresa antes de tirar os planos do papel. (E)nvironmental – fator Ambiental A primeira letra (E) refere-se às práticas relacionadas à proteção e preservação ambiental. Sua atuação pode se dar na atuação sustentável de questões como: Aquecimento global e emissão de carbono; Poluição do ar e da água; Biodiversidade; Desmatamento; Eficiência energética; Gestão de resíduos; Escassez de água. (S)ocial – fator Social A segunda letra (S) fala sobre as ações voltadas para as pessoas que rodeiam esse universo. Entende-se desde colaboradores até os clientes, com ações como: Satisfação dos clientes; Proteção de dados e privacidade; Diversidade e inclusão da equipe; Engajamento dos funcionários; Relacionamento com a comunidade; Respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas. (G)overnance – fator Governança A última letra da sigla se refere à administração da empresa. São as ações realizadas pelos stakeholders, gestores e setores de RH e Compliance na busca por um ambiente saudável e inclusivo: Composição do Conselho; Estrutura do comitê de auditoria; Conduta corporativa; Remuneração dos executivos; Relação com entidades do governo e políticos; Existência de um canal de denúncias. Realidade “Existe um risco, no entanto, de que a proposta de levar boas práticas para as empresas acabe sendo mais marketing do que propriamente uma mudança de comportamento.” Afinal, o ESG é mesmo uma realidade? Quais métricas são utilizadas para medir essas práticas? Quem fiscaliza isso? Algumas empresas aproveitam dessas ações para mascarar interesses financeiros? “Primeira coisa quando se fala em ESG é que precisamos entender quais as padronagens e padrões mínimos que unificam essa prática, para que possamos entender o que está se fazendo quando se fala em ter um portfólio ESG. Assim, é possível fazer comparações”, ponderou Sérgio Leitão, presidente do Instituto Escolhas. Essas dúvidas deixam em evidência uma falta de transparência do ESG. Não existe um órgão fiscalizador para analisar se o que está sendo divulgado é verdade. Faltam informações e parâmetros para realizar comparações e estabelecer metas. A ONG Global Reporting Initiative (GRI) divulgou um relatório de parâmetros para as organizações seguirem, mas tudo passa pela divulgação das empresas que muitas vezes manipulam, editam ou omitem informações. Alguns exemplos expõem a fragilidade desse sistema. Empresas consideradas ESG, como o Nubank, XP Investimentos e Carrefour, recentemente enfrentaram crises, onde foi exposto o racismo estrutural existente nas instituições. O caso do Carrefour ganhou repercussão nacional com o assassinato de um homem negro. Os seguranças do supermercado espancaram João Alberto Freitas, de 40 anos, até a morte. No aspecto ambiental, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), em 2018, analisou mais de 500 embalagens de produtos para comprovar a prática do greenwashing. Os resultados identificaram que em 48% das embalagens foram encontradas informações falsas sobre a responsabilidade ambiental. “Não é possível fazer comparações. Não consigo saber se um relatório de um banco que tem essas práticas é real, quais foram as métricas utilizadas. Então, a primeira questão é: falta transparência para que a gente possa comparar, avaliar e acreditar qual é o universo real de comparação e de checagem quando alguém diz que tem boas práticas”, ressaltou Leitão. Filtros Mesmo não existindo uma fiscalização efetiva, alguns filtros são aplicados para avaliar essas práticas. As empresas a serem investidas podem fazer parte da carteira, desde que suas notas ESG menores sejam compensadas com a adoção de práticas reparativas nos setores ambientais, sociais e de governança. Tais atitudes resultam em uma melhora nos fatores que deprimem essa nota. Além disso, se uma empresa passa por um evento gravíssimo (por exemplo, a Vale, no caso Brumadinho), ela fica proibida de entrar nos fundos ESG por, no mínimo, dois anos. O mercado percebeu que, para fugir das armadilhas, era preciso investir em pesquisas e gerar conhecimento. Após debruçar na matriz de materialidade de cada empresa, as investidoras criam pesos diferentes para realizar os filtros e assim traçar parâmetros e métricas nas áreas ambientais, sociais e de governança.   A consultoria global KPMG apontou no seu recente relatório “Measuring Stakeholder Capitalism: WEF IBC common metrics” (Medindo o Capitalismo de Stakeholder: WEF IBC métricas comuns) que ainda falta metrificar o quão bem as companhias estão se saindo em ESG em diferentes setores da indústria e locais de atuação.   No mesmo relatório foram apontados cinco pontos para medir o ESG de forma mais assertiva e padronizada: 1. Tópicos que impactam a empresa e a sociedade Neste primeiro passo, a consultoria global destaca a necessidade de se realizar uma análise de melhores práticas; pesquisar tendências na indústria de atuação; identificar as preocupações das partes interessadas; desenvolver uma lista bruta de tópicos de potencial interesse, explorando cada um para compreender a sua relevância aos stakeholders; priorizar métricas que terão impacto na criação de valor sustentável para a empresa e confirmar os tópicos de ação com a administração e o conselho de administração do negócio. 2. Analisar

‘Brasis’ desiguais: recortes da má distribuição de renda

No Brasil, uma pessoa de renda baixa demoraria cerca de nove gerações para atingir a renda mediana do país.       No idioma português, “desigualdade” é uma palavra com somente um significado. Porém, no Brasil ela possui diversas aplicações. Em um país tão diverso como o nosso, a pluralidade está em quase todos os cantos, menos em um lugar: na distribuição de renda.   Tanto quanto o samba e o futebol, a disparidade social é uma marca registrada da cultura brasileira. O país sempre é destaque negativo em pesquisas e estudos mundiais. Atualmente é o oitavo mais desigual do planeta, sendo o pior da américa latina e ficando à frente somente de nações africanas.   Essa informação foi divulgada por um dos indicadores utilizados pela ONU no relatório mundial sobre Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado em 2020. No estudo mais recente, o Brasil caiu 5 posições em relação ao ano anterior (2019).   Obviamente os impactos da pandemia do Covid-19 influenciaram nesses números, mas essa não é a única causa. Afinal, o que faz o Brasil um país tão desigual? Qual a face da pobreza no Brasil? Quais políticas públicas e institucionais estão sendo adotadas para resolver essas questões?   As desigualdades   Todo um processo histórico e social fizeram do Brasil um país desigual. Marcas da escravidão, da colonização exploratória e de uma política de favorecimentos geográficos ainda pesam sobre a realidade atual. Dependendo das camadas sociais, raciais, de gênero e orientação sexual, essa disparidade se torna absurda.   “O Brasil é hoje um país majoritariamente negro e feminino, governado por homens brancos. Estamos evidenciando …os elementos que impossibilitam uma resposta adequada da política nacional aos desafios que temos: crise econômica, pandemia de covid-19, vulnerabilidade de milhões de negros, mulheres, indígenas e pessoas LGBTQI+”, comenta Helio Santos, presidente do Conselho da Oxfam Brasil.   A falta de políticas públicas e a pouca atenção em indicadores como educação, qualidade de vida, qualificação de mão de obra, geração de empregos e taxação de grandes riquezas criaram esta realidade caótica. Um labirinto onde cada vez é mais difícil sair, pois não existem propostas concretas em nenhum dos cenários políticos que se propõem a governar a nação.   “A ideia é que o candidato (político) que não perceber que essa é a questão central que impede o país de ter uma sustentabilidade procure outro emprego”, disse Hélio Santos, em entrevista à Folha de São Paulo.   Negros – De acordo com dados do IBGE, as taxas de pobreza e extrema pobreza no Brasil são maiores entre a população negra. Em 2018, 32,9% de pretos e pardos viviam com menos de $5,50 por dia, valor adotado pelo Banco Mundial para indicar a linha de pobreza em economias médias.   Em situação de extrema pobreza, que é quando a pessoa vive com menos de $1,90 por dia, estão 8,8% da população negra no Brasil. A medida de comparação, somente 3,6% da população branca, ocupa a mesma posição.       Mulheres – A pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Oxfam Brasil, 68% dos entrevistados concordam que ser mulher impacta diretamente na renda. Diversos fatores contribuem para isso, como: salários inferiores, menor inserção no mercado de trabalho e também uma maior participação nos afazeres domésticos.   Em estudo recente publicado pelo Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP), estima-se que 61,1 milhões de pessoas estejam em situação de pobreza no Brasil em 2021. Dentre essas, 56% são mulheres e dessas 38% são negras.   Norte/Nordeste – A desigualdade geográfica também é visível nos muitos ‘Brasis’. O desequilíbrio demográfico, a falta de investimentos, o desequilíbrio no desenvolvimento industrial e uma má distribuição de verbas destinadas a políticas inclusivas criaram barreiras sociais que separam as regiões brasileiras.   De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, que separou Coeficientes de Desequilíbrio Regional (CDR), mostra que a média do rendimento domiciliar brasileiros é de R$ 1.380,00. Porém, nas regiões norte (R$ 925) e nordeste (R$ 916) ficam abaixo da média.   Se separarmos esses números por estados a disparidade fica ainda maior. Em 2020, o mesmo índice do IBGE apresentou que o Maranhão teve uma média de apenas R$ 635,59 enquanto no Distrito Federal esse mesmo índice é de R$ 2.685,76.       Fonte: IBGE Imagem: Reprodução G1   Difícil Escalada O abismo é muito profundo e extremamente difícil de ser escalado. Ascender socialmente no Brasil é muito complexo se você não vier de uma família de posses. Em um ranking de mobilidade social divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (2020), o país está na 60ª posição entre 82 economias.   Este mesmo relatório aponta que, no Brasil, uma pessoa de renda baixa demoraria cerca de nove gerações para atingir a renda mediana do país. Mesmo com a inserção de políticas assistencialistas, esse ‘upgrade social’ continua sendo difícil, pois não alcança todas as camadas, são insuficientes e mal implementadas.   As diferenças sociais são, na verdade, um projeto político de manutenção de poder pelas classes dominantes. A falta de representatividade política entre as minorias é um fator determinante para reverter essa situação.   Ações   O Instituto Oxfam propõe um guia de 10 ações urgentes contra as desigualdades no Brasil, que podem garantir um futuro com melhores oportunidades à população.   Enfrentar o racismo. Equilibrar o sistema tributário. Promover a oferta de trabalho. Revogar a Emenda do Teto de Gastos. Enfrentar a Discriminação Contra as Mulheres. Tributar lucros, dividendos e heranças. Combater a concentração de terras. Investir em Saúde e Educação. Melhor Qualidade do Gasto Público. Combate à Corrupção. “Finalmente, entendemos o seguinte: se etnia e raça foram utilizadas para excluir, devem ser utilizadas como critério para incluir”, comentou Santos, em entrevista para Época Negócios.

Quanto tempo temos? Mudanças climáticas e os impactos na economia brasileira

O impacto no agronegócio brasileiro O Brasil é um país referência no setor agrário, e cada vez mais vem sofrendo com as alterações climáticas. Plantações inteiras destruídas pela seca ou então congeladas, locais conhecidos pelo frio fazendo calor, regiões tropicais abaladas por frentes frias.   Até parece o roteiro de algum filme pós-apocalíptico, mas não é. O aquecimento global é real e as consequências mostram que estamos vivendo um período intenso de mudanças.   Por muito tempo, o desenvolvimento econômico foi inverso à preservação da natureza e à sustentabilidade. O desmatamento, as queimadas, a emissão de gases aceleraram em décadas o processo de aquecimento global.   Hoje, o planeta Terra está 1º C mais quente que o período pré-industrial e até a economia já sente os impactos dessas mudanças. Somente o Brasil tem perdas anuais entre 0.4% e 1.8% do produto interno bruto (PIB) por conta das mudanças climáticas.   Até 2040, estima-se que a Terra esquente mais 0,5º C, se ações concretas não forem adotadas. No âmbito econômico, o setor primário é o mais afetado. Se não houver comprometimento e engajamento de todos, do governo ao cidadão, as futuras gerações vão sofrer consequências ainda piores do que já estamos enfrentando.   Estudo aponta baixa na produtividade entre 2020 e 2100   As estimativas apresentadas na dissertação de mestrado “Mudanças climáticas no Brasil: efeitos sistêmicos sobre a economia brasileira provenientes de alterações na produtividade agrícola”, produzida por Bruno Santos de Souza e divulgada pelo Instituto Escolhas, apontam que as perdas econômicas totais poderão representar até cerca de 0,7% do PIB, sob um cenário otimista.   “Segundo o estudo esses prejuízos podem chegar a quase 4% do PIB do país, o que é muitíssimo grave, um volume de recursos que vai prejudicar e muito o Brasil. Uma queda de 4% arrasa com qualquer economia. As mudanças já são uma realidade e as perdas para o setor mais dinâmico da economia são terríveis. Pena que muitos dos setores da agronomia não tomaram consciência e fazem esse namoro perigoso com o negacionismo”, comentou Sérgio Leitão, advogado, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas.   A análise feita pelo Instituto Escolhas estima que as culturas de soja, cana-de-açúcar, milho, feijão, café e laranja terão baixa na sua produtividade entre 2020 e 2100. Essas culturas representam cerca de 82% da produção do país. Consequentemente, essas plantações são mais dependentes das condições climáticas e apresentam uma baixa taxa de adaptabilidade.       Fonte: Instituto Escolhas Se novos hábitos não forem adotados em todo o planeta, essa situação será irreversível, pelo menos é o que diz o estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sigla em inglês do órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, boas práticas ambientais são valiosas no mercado financeiro, muitas vezes adotadas como políticas institucionais.   “É fundamental a gente entender que isso só vai ocorrer quando o fluxo de recursos de investimento mudar. Ou seja, quando o dinheiro sair daquelas atividades que hoje estão ligadas aos negócios que provocam a mudança climática”, explicou Leitão.   O perigo da desinformação   Uma das recomendações do Instituto Escolhas para diminuir o impacto do aquecimento global é a transparência de informação e o compartilhamento de dados reais sobre o tema.   O negacionismo e a desinformação são armas constantemente utilizadas por setores conservadores tanto na política, quanto na economia. Eles ganham força principalmente em uma população sem acesso à informação, desinstruída e sem posicionamento político, social e ambiental.   “O problema faz parte da vida das pessoas, elas sabem o que é o frio, o que é o calor, o agricultor sabe o que é a perda da sua produção, sabe o que é a quebra de uma safra, sabe o que é uma seca. A gente não tem que fazer uma comunicação que seja científica na escrita, mas ela tem que estar ancorada nos dados científicos. Tem que falar a língua do povo. Para combater o negacionismo usamos informação qualificada, traduzida e simplificada para as pessoas entenderem”, comentou Sérgio Leitão.   O IPCC é uma ferramenta aliada nessa luta contra a desinformação, constantemente divulgando dados e estudos sobre o aquecimento global e as consequências no planeta. Recentemente o instituto divulgou um relatório sobre as mudanças climáticas que chocou o mundo: diante de mudanças sem precedentes no clima, algumas delas podem ser irreversíveis.   Confira nove pontos listados pelo relatório do IPCC sobre o impacto do aquecimento global na Terra: A temperatura da superfície terrestre subiu mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos visto nos últimos 2 mil anos; As ondas de calor se tornaram mais frequentes e mais intensas em quase todos os continentes do planeta desde 1950, enquanto frios extremos se tornaram menos frequentes e menos severos; Nas últimas 4 décadas, houve um aumento da proporção de ciclones tropicais; A influência humana aumentou a chance de eventos extremos desde 1950 e isso inclui a frequência da ocorrência de ondas de calor, secas em escala global, incidência de fogo e inundações. Em 2019, a concentração de CO² na atmosfera era maior do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos e a concentração de metano e óxido nitroso era a maior em 800 mil anos; As ondas de calor marítimas ficaram aproximadamente duas vezes mais frequentes desde 1980; Entre 2011 e 2020, a área média de gelo no Ártico atingiu seu número mais baixo desde pelo menos 1850 e era, no final do verão, menor do que em qualquer época nos últimos mil anos; O recuo das geleiras – com uma redução sincronizada em qualquer todas as geleiras do mundo desde os anos 50 — é sem precedentes pelo menos pelos últimos 2 mil anos; O nível médio do mar aumentou mais rápido desde 1900 do que em qualquer século em pelo menos nos últimos 3 mil anos.   Como reverter o cenário atual   A análise do Instituto Escolhas também aponta algumas estratégias de políticas públicas que podem ser

Toque de Midas: Japão transforma e-lixo em ouro

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, mesmo que controversos por conta da pandemia do Covid-19, são um exemplo de sustentabilidade. O país asiático é referência em associar desenvolvimento, tecnologia e práticas sustentáveis. Esse esforço se refletiu durante toda a competição e até o tão sonhado ouro olímpico ganhou uma simbologia especial, pois até pouco tempo era apenas e-lixo. De acordo com a ONU, aproximadamente 53,6 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram geradas no planeta em 2019. Tendo como base os últimos cinco anos, houve um aumento considerável de 21%. O relatório The Global E-waste Monitor 2020 também prevê que esses resíduos chegarão a 74 milhões nos próximos dez anos, quase o dobro do que está sendo produzido atualmente. Por conta do avançado desenvolvimento tecnológico entre abril de 2017 e março de 2019, foram coletadas mais de 78 mil toneladas de lixo eletrônico no país-sede e aproximadamente 6 milhões de aparelhos quebrados ou antigos, segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI). Desse material, boa parte foi recuperada e reutilizada na produção de novos produtos, inclusive na produção das medalhas, símbolo dos jogos olímpicos. Por ser um arquipélago, os recursos naturais no Japão são limitados. Então, o ouro e a prata contidos em eletrônicos no país são extremamente valiosos. Segundo informação do Nikkei Asian Review, somente em 2014 foram retirados de produtos descartados: 143 quilos de ouro; 1,5 tonelada de prata e 1,1 tonelada de cobre. Economia Circular Japonesa A reciclagem já faz parte da cultura japonesa. Produtos descartados não são tratados como resíduos e, sim, como recursos. A alta demanda de tecnologia empregada para a recuperação dos produtos descartados faz com que a população participe ativamente do processo. “A falta de cultura para o descarte correto está associada ao pensamento de “meio ciclo” e ao desenvolvimento de produtos com foco somente na fase de uso. Não fazemos a associação da reciclagem como um processo de transformação de resíduos em novos materiais e novos produtos. É isso que o Japão está fazendo de forma brilhante: nos mostrando que com design, qualidade e performance, os resíduos podem ser transformados em belos produtos. E por isso não existe a percepção de descarte e nem de lixo!”, comentou Beatriz Luz, fundadora da Exchange 4 Change Brasil e do Hub de Economia Circular. O Brasil não sobe no pódio Líder na América Latina na produção de resíduos eletrônicos, o Brasil produz 1,5 toneladas de lixo por ano e somente 3% é descartado de maneira adequada com 2% de reaproveitamento. O alto custo da coleta, as dificuldades operacionais na logística e o fato de que, atualmente, fazer a reciclagem desses equipamentos não garante nenhum tipo de incentivo fiscal para a indústria, são desafios para o país avançar nesse sentido. Logística Reversa A logística reversa, regulamentada pelo decreto federal 10.240, de 2020, estabelece que os consumidores só podem realizar descarte de resíduos eletrônicos em pontos específicos de recebimento. A recepção e armazenamento desses equipamentos deve ser feita pelo comerciante responsável por realizar o transporte dos eletroeletrônicos até o destino final ambientalmente adequado (reciclagem). Essa operacionalização do sistema de logística reversa começou a funcionar em 1º de janeiro de 2021, com a habilitação de prestadores de serviço, confecção dos planos de comunicação e de educação ambiental e instalação de pontos de recebimento desses equipamentos. Instituições como a Associação Brasileira de Reciclagem de Eletrônicos e Eletrodomésticos (ABEE) e até empresas do setor privado já estão realizando essas atividades em cooperação com ecopontos, recicladores e catadores. De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos deve ser compartilhada. Com isso, empresas produtoras de tecnologia portátil de alta rotatividade devem apresentar programas e projetos para descarte correto dos eletroeletrônicos, visando a reciclagem e reutilização dos materiais que forem coletados pelas mesmas. Qual a melhor forma de descartar seu e-lixo? Guarde-o com você até ir a um centro de coleta da sua cidade; No site da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletrônicos e Eletrodomésticos (ABEE) existe uma plataforma que mostra pontos de coleta próximo de sua casa, acesse o link: http://abree.org.br/pontos-de-recebimento Caso não tenha um centro de coleta na sua cidade, procure empresas que fabricam ou vendem estes produtos para que possam ser descartados; Procure um centro universitário que acolha estes objetos para estudo ou para reutilização.