A revolução nas relações de trabalho
Você já se adaptou à nova rotina de trabalho em casa? Como está a relação empresa/colaborador à distância? Como os novos modelos de relações de trabalho impactam a sociedade? Jean Soldatelli, sócio-fundador da consultoria de engajamento Santos Caos, conversou com o CIVI-CO sobre as mudanças que se estabeleceram no mundo do trabalho com a imposição do home office em período de quarentena e como elas afetam as empresas e a sociedade. A entrevista aconteceu em uma live no perfil do CIVI-CO no Instagram, onde estamos transmitindo bate-papos com empreendedores engajados em pensar soluções neste período de crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. Quais são os desafios mais comuns vividos pelas empresas com relação ao engajamento neste período de pandemia? Faz uns 30 ou 40 anos que as relações de trabalho não são desafiadas desta forma como vemos hoje. Estamos vivendo uma revolução nas relações de trabalho. No que percebemos, as mudanças são diferentes para basicamente dois grupos de trabalhadores: aquele que, do dia pra noite, começou a trabalhar de forma remota, mas que pode se adaptar, como é o caso da maioria daqueles que estão em áreas administrativas das empresas. E aqueles que precisam sair de suas casas para continuar o trabalho e vivem uma série de aflições e receios que precisam ser compreendidos. As empresas ainda estão tentando entender estes dois cenários. No primeiro, existem algumas questões legais que são uma incógnita, como por exemplo: se o trabalhador não tem condição de pagar uma internet de boa qualidade para fazer o seu trabalho, de quem é a responsabilidade de pagar pela internet? Já no segundo, é preciso pensar em como dar segurança ao trabalhador que precisa sair de casa. Muitas vezes, entender como se relacionar até com a família dele, porque a família tem um grande impacto no engajamento de quem está trabalhando fora. Com estes e outros desafios existentes, qual é a importância do engajamento em tempos de crise? O engajamento é uma conexão entre a empresa e a pessoa. Essa conexão pode ser potencializada positivamente ou negativamente por meio do que se costuma chamar de “close door moments”. Imagine uma porta fechando. Este momento é a confiança do colaborador sendo criada com a empresa. Então, se a porta se fecha, a confiança acaba e a relação dificilmente vai voltar ao que era. A pandemia é um desses momentos em que a porta está se fechando e, dependendo da ação da empresa, a confiança do colaborador vai minar ou não. Quando o assunto é engajamento, vivemos um momento chave. Podemos dizer que é como se fosse uma “seleção natural das empresas”. Aquelas com mais viés de engajamento devem sair mais fortes deste momento, e as com menos viés de engajamento vão sair mais fracas por terem a sua reputação arranhada ou pela sua atitude, por não terem apoiado a sociedade, por terem aproveitado a fase apenas para obter mais lucros. Essas questões geram soluções inéditas que não aconteceriam em um cenário comum. Tem exemplos? Algumas empresas estão transformando o vale-refeição ou vale-transporte em outros benefícios que podem ser mais úteis neste momento, como vale-alimentação ou até mesmo consultas psicológicas. Há também aquelas que estão dando prioridade aos processos, para a parte de estrutura física e tecnológica. Mas é preciso lembrar que conectar as pessoas é muito importante. Neste sentido, algumas empresas têm trabalhado com happy hour virtual, jogos alternativos, reuniões descontraídas. São ritos que a gente desenvolve à distância para aumentar o espírito de grupo, para aumentar o team building, melhorar a comunicação entre a equipe e manter uma relação humanizada mesmo à distância. Como as empresas podem se adaptar para manter o engajamento entre a equipe? Este momento está fazendo as empresas pensarem nos ritos da sua cultura. Até hoje os ritos eram muito baseados nos ambientes físicos. A pessoa se sente pertencente à empresa porque ela entra no ambiente, vê as cores da marca, os valores da empresa na parede, todo mundo de uniforme, tem os encontros, as festas. Existem elementos físicos que a fazem lembrar do seu vínculo com a empresa. O desafio atual é: como manter e fazer com que esses ritos extrapolem o físico? Uma alternativa é criar rituais online para manter o espírito de grupo e, principalmente, a humanização da relação entre empresa e colaborador. Qual é o principal problema que a empresa pode enfrentar com a falta de engajamento ou confiança do colaborador? Perda de talentos. O que provavelmente vai acontecer com as empresas que não conseguirem criar uma laço de confiança com o funcionário é a perda de talentos. Depois que este período de quarentena passar, se as ações e comportamento das empresas forem negativos, as pessoas com mais possibilidade de transição de carreira vão trocar de organização. Qual é o papel social das empresas para uma retomada segura ao trabalho em uma rotina que exigirá várias mudanças e medidas de proteção? As empresas são catalisadoras das mudanças de cultura da sociedade. Quando a empresa assume o seu papel social de educar e fomentar novas culturas de comportamento como, por exemplo, manter um distanciamento mínimo no escritório para evitar o contágio de um vírus, isso catalisa um novo hábito na sociedade. O que se espera dos líderes nas ações de apoio aos trabalhadores? Mais do que nunca, as lideranças precisam entender que o conceito de equidade é diferente do conceito de igualdade. Por exemplo, se a empresa reduz 25% do salário de todos os funcionários para evitar demissões, isso é igualdade. Já o conceito de equidade é justamente levar em conta o ponto de partida de cada um e, considerando este exemplo, pensar em redução adicional para cargos maiores. É entender que 25% pode não impactar tanto o salário de um CEO e o seu estilo de vida, mas vai prejudicar o orçamento de uma pessoa que recebe um salário menor. A diversidade deixa de ser um diferencial para ser um dos pilares do negócio? As empresas vão começar a entender que elas precisam a se